O número de crimes cibernéticos, sobretudo de “clonagem de telefone”, tem vindo a ganhar proporções alarmantes no país, levantando preocupações entre usuários de plataformas digitais e não só. A prática criminosa, que permite terceiros (hackers) assumirem o controlo de números alheios e contas de redes sociais como Facebook e Whatsapp, mensagens, assim como contas bancárias, tem resultado em prejuízos financeiros, emocionais e perda de confiança em sistemas digitais.
Em muitos casos, os lesados somente se apercebem do golpe depois de ficarem sem rede no telemóvel e perderem controlo de suas contas.
RELATO DE VÍTIMAS
Foi através de click em um link no Facebook que Arlindo Magaia permitiu o acesso aos seus dados de redes sociais, sobretudo do Whatsapp, aos “hackers”. O que começou como uma interacção inocente no Facebook supostamente com seu primo que se encontrava na China, rapidamente se transformou em um pesadelo. “Na interacção, ele disse-me que tinha uma encomenda por enviar a Maputo, e que deveria receber por ele. Pediu-me o contacto de Whatsapp. Não me passou pela cabeça que se tratava de outra pessoa. Enviou-me um código e abri”, conta.
Acrescentou que depois dos “hackers” terem acesso à plataforma, o baniram e rapidamente emitiram mensagens a solicitar valores monetários entre oito mil a doze mil Meticais à pessoas da sua lista de contactos.
Nesse processo, conseguiram extorquir dez mil Meticais a uma conhecida sua que se encontrava na China. “Quando recebeu a mensagem, tentou entrar em contacto comigo, mas sem sucesso e em seguida, mandou o valor”, revelou. Depois do ocorrido, acresce que trocou de contacto e alertou o seu banco com vista a congelar sua conta bancária. “Depois de uma semana, fui recebendo uma série de notificações. Nelas o meu contacto vinha na base de dados dos burladores”.
Outra vítima que interagiu com o nosso jornal revelou que após clonarem seu telemóvel, ficou alguns dias sem perceber o que estava a acontecer. Até descobrir que se tratava de uma clonagem quando um vizinho seu questionou a foto de perfil de uma mulher branca no seu WhatsApp.
Adiante, referiu que teve outro cenário em que um estrangeiro contactou-o e manifestou interesse em fazer negócio em Moçambique e prometeu oferecer telemóveis, computador, entre outros equipamentos. Em contrapartida, devia enviar um valor num número que o criminoso havia disponibilizado, para proceder ao levantamento dos produtos. “Não mandei, pois descobri que se tratava de burla e logo bloqueou-me”. O “modus operandi” dos “hackers” geralmente é de enviar mensagens com códigos disfarçados de avisos de segurança, participação de eventos online, atraindo às vítimas a fornecerem informações pessoais.
COMO FUNCIONA O ESQUEMA
O administrador para o pelouro Técnico Operacional no Instituto Nacional de Tecnologia de Informação e Comunicação (INTIC), Constantino Sotomane, começou por explicar que a clonagem de telefone é uma fraude cibernética em que um “hacker” cria uma cópia da identidade de um dispositivo móvel ou do cartão SIM, permitindo-lhe usar o número da vítima como se fosse o original. Isso ocorre através de técnicas como a duplicação do cartão SIM (SIM cloning) ou o SIM swap, em que o criminoso engana a operadora de telecomunicações para transferir o número da vítima para outro chip.
Acrescentou que os métodos mais usados incluem manipulação da vítima ou funcionários da operadora para obter dados pessoais ou códigos de verificação; envio de mensagens, e-mails ou “links” falsos para roubar informações de acesso, como senhas e códigos OTP – Senha de uso único, entre outros.
Para o dirigente, o que contribui para o aumento deste crime nos últimos tempos é o maior uso de serviços digitais e banca móvel; fraqueza na segurança das operadoras; crescimento do crime cibernético organizado. Isto é, os grupos criminosos estão mais sofisticados e utilizam técnicas avançadas para fraudes e exposição de dados pessoais online, entre outros.
PREVENÇÃO E SEGURANÇA
Segundo Sotomane, para evitar esse crime, é preciso que se active a autenticação multifactor (MFA) nos celulares e computadores sempre que possível, sobretudo em contas bancárias e e-mails, proteger informações pessoais, desconfiar de mensagens e chamadas suspeitas, sobretudo as que pedem códigos de verificação ou dados pessoais, não clicar em links desconhecidos e contactar rapidamente a operadora em caso de perda de sinal repentina ou suspeita de troca de SIM e a Polícia.



