Texto de Ginoca Mafutine
No Hospital da Maragra, a escuridão já deixou de ser apenas ausência de luz. Tornou-se um retrato brutal do abandono, da negligência e da forma cruel como a vida do povo pobre continua a valer menos.
Há quase quatro meses que aquela unidade sanitária vive mergulhada numa penumbra humilhante, como se o sofrimento da população tivesse deixado de ser prioridade. Um hospital sem energia eléctrica não é apenas um edifício às escuras; é um lugar onde a dignidade humana vai morrendo lentamente entre paredes cansadas, corredores abafados e rostos desesperados.
Três meses sem energia, caminhando para o quarto. Dois meses em que mulheres grávidas entram naquela unidade sanitária carregando velas, lanternas e medo. Porque provavelmente dar à luz sem electricidade não é apenas difícil, é desumano. Há mães que chegam com dores de parto e, além da roupa do bebé, levam também água na cabeça, porque até a água deixou de existir normalmente naquele lugar onde vidas deveriam ser protegidas.
Algumas caminham longas distâncias antes de chegar ao hospital. Outras entram na maternidade já exaustas, cobertas de suor, poeira e preocupação e quando finalmente chegam ao lugar onde deveriam encontrar assistência, encontram escuridão, calor sufocante e incerteza.
O hospital, que deveria ser um símbolo de esperança, tornou-se um retrato doloroso do medo. Corredores mergulhados na penumbra, profissionais de saúde tentando salvar vidas à luz trémula de velas. Pacientes abafados pelo calor, crianças chorando no escuro, doentes olhando para o tecto como quem espera um milagre que nunca chega. E o mais revoltante é perceber que tudo isso já começa a ser tratado como normal, como se fosse aceitável uma mulher dar à luz sem condições mínimas. Como se fosse normal um hospital funcionar como uma casa abandonada no meio da noite. Leia mais…


