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O barulho ensurdecedor do silêncio

Por Belmiro Adamugy
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Quando se fecha a capa grossa de um livro, produz-se, quase sempre, um som cavo, quase imperceptível para o ouvido humano. Também pode soltar uma pequena nuvem de pó, assinalando, a modos sacramentais, o fim de mais uma jornada. Assim é a vida…o ciclo tem o seu início e fim. Não queremos, não nos resignamos, mas a marcha lenta e inexorável do tempo acaba sempre por fazer efeito… e na última quarta-feira, no cair da manhã, fomos fechar a capa de um livro que, visivelmente, teria mais capítulos não fosse a morte, essa maldita que nos espreita esfaimada. À terra, entregamos já o corpo do José, o nosso Six.

Estamos ainda a tentar o impossível, que é compreender os porquês, os comos e outras mais perguntas que, sabemos, não terão nenhuma resposta… ou melhor, o silêncio será tanto que não seremos capazes de perceber a linguagem codificada do fim. Silêncio e mais silêncio. E a dor – fruto da nossa inacção diante do ocaso – é que a ausência de quem amamos depois da morte não chega de uma vez. Ela instala-se devagar, como a sombra que cresce ao entardecer sem que ninguém perceba o instante exacto em que a luz começou a partir.

Primeiro, é apenas um silêncio diferente dentro da casa, um espaço vazio à mesa, uma cadeira que permanece imóvel. Depois, a ausência ganha raízes e passa a habitar os lugares mais inesperados: a dobra de uma roupa esquecida, o aroma de um perfume que o tempo ainda não dissipou, a lembrança de uma risada que surge de repente no meio de uma tarde comum.

A morte leva a presença física, mas não consegue apagar os vestígios do amor. Quem parte continua existindo em pequenos fragmentos espalhados pela vida daqueles que ficam. Está nos hábitos que herdamos sem perceber, nas expressões que repetimos, nos conselhos que ainda ouvimos em pensamento quando precisamos de tomar uma decisão.

A pessoa amada deixa de caminhar ao nosso lado, mas passa a habitar um território mais profundo: a memória. E sobre memória, revejo quase nitidamente o dia em que, em 1994, o José Sixpence, na companhia de Jorge Rungo e Abreu Sumbane (este que cedo virou pó), adentraram, tal como faziam os “cow-boys” nos filmes de “Western”, na redacção do semanário domingo.

Altivos, sem serem arrogantes; humildes sem serem miseráveis. Eram apenas três jovens com garra, decididos a conquistar um espaço na arena da comunicação social. Como diz o Jorge Rungo, eu tornei–me uma espécie de protector, graças a uma tal “calma sacerdotal”… mas a verdade é que rapidamente nos tornamos muito próximos. Entendi-lhes a essência. Jovens, sim, mas atentos aos fenómenos circundantes. Estavam talhados para a arte de escrever. Afoitos, com sangue na guelra, rapidamente tornaram-se peças fundamentais na nossa redacção. Leia mais…

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