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O que não se vê também mata

Por Jornal domingo
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Texto de Sousa Gastão

A cozinha mais limpa que conhecemos pode ser a nossa e ainda assim esconder aquilo que nenhum olho consegue ver. Há coisas que não se anunciam. Entram na cozinha sem ruído, sentam-se à mesa sem pedir licença e, por vezes, deixam a doença antes mesmo de deixarem um sinal.

É por isso que a segurança dos alimentos continua a ser uma das grandes questões discretas da vida moderna. Porque o perigo raramente tem a delicadeza de se mostrar. Um alimento pode parecer fresco, cheirar bem, ter a cor certa, vir de mãos conhecidas e ainda assim transportar aquilo que escapa aos olhos: microrganismos, toxinas, contaminantes, falhas de higiene, erros de conservação.

O corpo, esse, acaba frequentemente por pagar a conta. Vivemos rodeados de informação. Nunca se falou tanto de higiene, alimentação, saúde, prevenção, conservação e boas práticas. E, no entanto, nunca foi tão evidente a distância entre saber e fazer.

Porque o conhecimento, sozinho, não lava mãos. Não separa alimentos crus dos cozinhados. Não limpa superfícies. Não respeita temperaturas. Não protege a água. Não substitui o cuidado.

A verdade por incómoda que seja, é esta: muitos dos riscos alimentares não nascem no laboratório, mas no hábito. No gesto apressado.

Na confiança excessiva. Nas frases repetidas com resignação ou orgulho: “sempre fiz assim”, “nunca aconteceu nada”, “é só desta vez”. Estas frases, ditas sem malícia, são talvez das mais perigosas de todas. Porque acomodam o comportamento, absolvem o descuido e transformam a ausência de consequências anteriores numa falsa garantia de futuro. Leia mais…

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