TEXTO DE MICAELA MEQUE
Aos 42 anos de idade, Clausse Cumbe carrega as marcas de uma vida atravessada pela droga, crime e por mais de 15 passagens pela cadeia. Mas hoje, desse passado, ficaram apenas lições que ajudaram a escrever as novas páginas da sua vida.
Lançou um livro sobre a toxicodependência; constituiu família e quer ser o pai de que os filhos se orgulham; e, em Inhambane, resgata jovens perdidos no submundo das drogas e crimes.
Recuemos ao passado para compreender o novo homem em que Clausse Cumbe se tornou. Nasceu no bairro do Jardim, na cidade de Maputo, numa família minimamente organizada. Filho de pai comandante da Polícia da República de Moçambique e mãe doméstica, frequentou a escola até à 9ª classe.

“Eu era rebelde. Essa característica acabou por contribuir para que o meu aproveitamento escolar fosse pouco satisfatório”, recorda. Foi aos 14 anos que tudo começou. Um amigo do bairro apresentou-lhe as drogas. Primeiro, consumiu canabis sativa, vulgo soruma. Depois, passou a usar os chamados “tororos”, cientificamente conhecidos como rock 2. Mais tarde, experimentou haxixe e, por considerar que aquelas substâncias eram “leves”, avançou para o consumo de cocaína e rock.
À medida que o consumo aumentava, crescia também a necessidade de dinheiro para sustentar o vício. Aos 15 anos, realizou o primeiro assalto a uma mercearia, na companhia de dois amigos, com recurso a uma arma de fogo que retirou às escondidas do pai. A partir daí, os crimes tornaram-se parte da sua rotina.
“Eu arrombava estabelecimentos comerciais, bombas de combustível e casas de particulares. Era preso, saía, voltava a cometer crimes e era novamente preso”, recorda. Seus pais faziam de tudo para o tirar da cadeia e tentar afastá- -lo daquela vida, mas sem sucesso. Com o passar dos anos, os crimes por ele cometidos tendiam a agravar-se.
Numa das ocasiões, que transportava novamente uma arma de fogo adquirida nos meandros do crime, foi perseguido pela Polícia, ao que conseguiu atravessar a fronteira para a África do Sul, onde acabou preso, um ano e oito meses, por posse ilegal de arma.
Regressou a Moçambique e afundou-se ainda mais no consumo de substâncias ilícitas e crime. Foi perdendo a proximidade com familiares e amigos a ponto de viver na rua. “Cheguei a procurar comida nos contentores de lixo e fazia serviços ligados ao tráfico de droga apenas para conseguir dinheiro para consumir essas substâncias”, conta.
ARREPENDIMENTO E MUDANÇA
Ao longo de vários anos no submundo do crime, Clausse passou por agressões nas ruas, ameaças de morte e escapou a várias tentativas de homicídio. Na sua última detenção, em 2011, por vários crimes cometidos, foi condenado a seis anos de prisão.
Foi no Estabelecimento Penitenciário Preventivo da Cidade de Maputo (Cadeia Civil), onde o arrependimento e a vontade de mudar falaram mais alto. Decidiu aproximar- -se das brigadas da Igreja Católica que actuavam dentro da penitenciária.
“Quando me perguntaram o que precisava, respondi que necessitava de bíblias apenas e de momentos de oração. Tempos depois comecei a evangelizar outros reclusos. Criámos iniciativas como o Laboratório da Liberdade e o Roda Vida, um processo de reabilitação que continuou depois da minha saída da prisão”, recorda..Leia mais…


