Por Ginoca Mafutine
Esta crónica nasceu no quintal de várias casas de Manhiça. Nasceu na voz baixa de avós que varrem o chão duas vezes por dia, não por sujidade, mas para espantar a espera. É dedicada a elas. Às que criam netos, que guardam fotografias antigas na Bíblia e que ainda põem um prato a mais na mesa.
Há casas aqui que ficaram suspensas no dia em que um homem saiu pela porta com uma trouxa pequena às costas e uma promessa demasiado grande na boca. Disse que voltava em seis meses, que ia erguer a casa, comprar o material escolar, dar futuro. E a porta ficou entreaberta desde então, porque a esperança não sabe fechar. Passaram anos. O calendário virou, as crianças cresceram, casaram, tiveram filhos. E ele não esteve em nenhuma dessas fotografias. Continua apenas naquela imagem antiga, amarelada, pendurada na sala, com um silêncio em volta que o tempo foi escurecendo como se fosse luto.
No início ainda chegava qualquer coisa. Uma carta que demorava meses, com a tinta corrida e a cheirar a fumo barato. Um telefonema de cabina, trinta segundos contados: “Estou bem, mãe. Dá saudações a todos”. Depois vieram os telemóveis e as mensagens a pedir saldo. E depois veio o nada. Um silêncio comprido que se instalou como móvel na casa. Já não se pergunta “quando é que ele liga”. Pergunta-se “será que ainda se lembra do nosso número”. E é aqui que a dor aperta mais, porque não é a ausência que mata, é a dúvida. É não saber se está vivo, se está doente, se está preso, se tem fome, se refez a vida longe, ou se a terra o engoliu numa qualquer obra e ninguém teve nome para o reclamar. Leia mais…


