O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou, na semana passada, aquilo que chamou de “operação económica mais devastadora” contra o Irão. Trata-se de mais um anúncio de sanções económicas contra o país persa, numa altura em que Washington se frustra perante a resistência de Teerão e o impasse das negociações para pôr fim à guerra entre os dois países. Ao anunciar as novas medidas, Trump ameaçou que “qualquer país que permita às suas instituições financeiras, empresas, aeroportos ou entidades governamentais prestar qualquer tipo de apoio financeiro ao Irão enfrentará TREMENDAS consequências económicas”. Ao que tudo indica, para o inquilino da Casa Branca, os Estados soberanos do mundo estão proibidos de prosseguir interesses nacionais que não estejam alinhados com os de Washington. A ameaça de sancionar países que mantêm relações comerciais com o Irão revela, assim, uma concepção de política internacional em que a soberania dos outros Estados parece estar condicionada pela vontade da principal potência económica e financeira mundial.
Com as suas ameaças a Estados terceiros, Trump ressuscita uma lógica que é recorrente na política externa dos EUA: a distorcida percepção da liderança norte-americana de que “quem não está connosco está contra nós”. Embora ampliada pelo actual inquilino da Casa Branca com o seu make America great again, esta lógica não nasceu com Donald Trump. A ideia de que, na política externa norte- -americana, quem não está com Washington está contra Washington tem antecedentes num outro presidente republicano dos EUA. Depois dos ataques de 11 de Setembro de 2001, o presidente George W. Bush tornou célebre a máxima de que “quem não está connosco está contra nós”, transformando a chamada Guerra Global contra o Terror numa espécie de teste de alinhamento internacional. Países e governos eram pressionados a escolher um lado, e a neutralidade tornava-se cada vez mais difícil. A doutrina Bush colocava o combate ao terrorismo no centro da política externa americana e estabelecia uma divisão entre aqueles que apoiavam Washington e aqueles que, por diferentes razões, eram vistos como obstáculos ou ameaças.
Ainda que tenha sido explícita durante a presidência de Bush filho, a lógica é, contudo, ainda mais antiga. Durante a Guerra Fria, os EUA frequentemente interpretaram conflitos e disputas locais através da competição global com a União Soviética. Governos que procuravam caminhos políticos ou económicos independentes eram muitas vezes vistos à luz da disputa entre os dois blocos. O resultado foi uma política externa em que a defesa dos interesses americanos se confundia, em vários casos, com a exigência de alinhamento dos outros países. Leia mais…



