AArábia Saudita encontra-se perante uma das situações estratégicas mais delicadas das últimas décadas. Aquilo que começou como uma intervenção destinada a esmagar os Houthis e impedir que o movimento consolidasse o seu poder no Iémen corre agora o risco de produzir precisamente o efeito contrário: os Houthis aparentam estar mais fortes, mais experientes e, sobretudo, posicionados numa das rotas marítimas mais importantes do planeta. A recente tomada de Mocha, o avanço sobre a costa do Mar Vermelho e a conquista de posições nas ilhas estratégicas de Bab al-Mandeb colocaram o movimento iemenita numa posição privilegiada para ameaçar uma das principais alternativas de Riade ao Estreito de Ormuz. Ao mesmo tempo, o Irão mantém sob pressão Ormuz. O resultado é aquilo que pode ser descrito como um “duplo bloqueio” energético: Teerão pressiona a saída oriental do petróleo do Golfo, enquanto os seus aliados Houthis ameaçam a rota meridional pelo Mar Vermelho.
Aqui a história começa a assumir contornos irónicos para Riade. Durante anos, a Arábia Saudita tentou impedir que os Houthis se transformassem numa força militar capaz de ameaçar o território e os interesses do reino. A intervenção iniciada em 2015 procurava restaurar o governo iemenita reconhecido internacionalmente, afastar os Houthis do poder e criar uma barreira de segurança junto da fronteira sul saudita. Entretanto, o resultado foi no sentido oposto às intenções de Riade. Os Houthis não só não desapareceram, como também sobreviveram a uma das campanhas militares mais prolongadas do Médio Oriente, desenvolveram capacidades de guerra assimétrica, aperfeiçoaram o emprego de drones e mísseis e transformaram-se numa força política e militar consolidada. Assim, ao invés de produzir um Iémen estável e capaz de conter os Houthis, a intervenção saudita ajudou a criar as condições para a sua transformação num movimento militar muito mais sofisticado. Ou seja, o feitiço virou contra o feiticeiro.
Os sauditas entraram no conflito com uma enorme vantagem económica e militar. Os Houthis tinham recursos muito inferiores. Ao que tudo indica, uma guerra assimétrica raramente é decidida apenas pelo tamanho dos arsenais. Os Houthis têm uma vantagem geográfica extraordinária: estão instalados numa das principais rotas marítimas do planeta. Bab al-Mandeb, que agora controlam, é um estreito relativamente estreito, mas de enorme importância para o comércio mundial. Quem consegue ameaçar a passagem não precisa necessariamente de possuir uma grande marinha. Como se tem visto em Hormuz, com mísseis antinavio, drones, minas, embarcações rápidas e sistemas de vigilância, pode-se transformar uma área relativamente pequena numa zona de elevado risco para navios comerciais. Foi exatamente isso que os Houthis demonstraram nos últimos anos. Leia mais…


