“Caíram” na enfermagem sem ter noção do que lá iam aprender. Algumas delas viviam ainda a sua meninice, quando a pátria as chamou para suprir a escassez de recursos humanos no sector da Saúde, neste caso, no serviço de Saúde Materno-Infantil (SMI). Volvidos mais de 30 anos na profissão, levantam a bandeira da vitória do dever cumprido. Hoje, do lado de fora das portas das maternidades, mostram-se preocupadas com a qualidade dos serviços de parto oferecidos pelo sector, por sinal, mais sensíveis da Saúde e afirmam que a culpa não é solitária. Em conversa com domingo, colocaram as cartas à mesa.
Quando Eduarda Suzana Augusto recua a fita do tempo, até a sua juventude, vem-lhe à memória o dia que lhe foi anunciado que iria trabalhar para o distrito de Machanga, na província de Sofala. Era tempo de guerra. Seu pai chorou na despedida. Tinha 22 anos e acabava de ser formada em Saúde Materno-Infantil pelo Instituto de Saúde da Manhiça. A notícia de ir para muito longe não lhe caiu bem, por isso ofereceu resistência. “Ouvia boatos de que quando você vai ao distrito trabalhar tem de tomar cuidado com os directores das unidades sanitárias, porque havia assédio. De princípio, neguei. Só aceitei quando me colocaram com outra colega, pois senti-me segura”, recorda.
As circunstâncias do tempo de guerra obrigaram-na a saber defender-se e sobreviver naquele contexto. Mas, um dia se viu a escapar da morte por um fio, decidiu não romantizar o perigo iminente em Machanga. “Certa noite, os militares entraram na maternidade. Estava lá uma mulher que acabava de fazer um parto difícil. Perguntaram por mim e ela foi morta. No dia seguinte, os nossos superiores decidiram que devíamos voltar à cidade da Beira”, recorda. Além da situação dos ataques de guerra, a interacção com as comunidades foi outro desafio nos primeiros anos de actividade. Conta que as autoridades tradicionais exerciam muita influência sobre o trabalho realizado pelos profissionais de saúde nas unidades sanitárias. “A partir do sétimo mês de gestação, as mulheres tinham o hábito de tomar medicamentos para facilitar o parto. Lutamos para explicar que aquilo podia colocar em perigo a vida do bebé. Mas nem sempre éramos ouvidas”, diz.
A tradição de consultar o curandeiro antes de ir ao hospital foi outra narrativa difícil de lidar no princípio da profissão. “As mulheres vinham ao centro de saúde com a recomendação do que devíamos fazer, há muita coisa que não aceitavam porque o curandeiro não recomendou”, partilha e acrescenta ainda: “cansadas disso, um dia ganhamos coragem e fomos falar com o curandeiro da comunidade para pedir que parasse de ditar o nosso trabalho”, conta. Leia mais…


