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Despejados do afecto

Por Jornal domingo
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  • Há crianças que pululam em ruas e nunca conheceram a porta de uma sala de aula

Texto de Micaela Meque

A pobreza e a orfandade transformam residências em vazios e empurram menores para as ruas de Maputo. Com efeito, o lar, que devia ser sinónimo de colo, afecto e zelo, perde esse conceito na vida de centenas de menores que, diariamente, se posicionam em semáforos e outros pontos das grandes vias da capital do país para estender a mão e mendigar por um tostão para o pão.

E a vida de crianças como Júnior (13 anos), André (11) e Luís (14) retrata a vulnerabilidade social e a desgraça vivida na pele de quem tem ao mesmo tempo o seu futuro alienado e incerto. Júnior e André são irmãos e estão a ser criados pela avó materna. Não têm lembrança nenhuma do rosto da mulher que os trouxe ao mundo, pois esta perdeu a vida muito jovem.

A situação dos adolescentes torna-se mais penosa, pois o seu progenitor virou- -lhes as costas, apartou-se e hoje reside na África do Sul, sem remorso, sem peso de consciência, atirando os dois órfãos de mãe para os fundos de uma ruína, localizada na baixa da cidade de Maputo. Estas crianças nunca estiveram numa sala de aulas. Dos seus nomes, apenas enunciam os sons.

Naquele lar amargo onde residem com a avó já debilitada, sem forças e sem rumo passam dias e noites sentindo na pele as agruras da pobreza. Como forma de driblar o sofrimento, os dois irmãos fazem-se à rua diariamente à busca de uma esmola.

A meta diária é manterem-se vivos – eles e a avó – até porque não lhes resta outra alternativa. O apoio de familiares passa longe. Nem isso, nem outro tipo de assistência da parte do Estado. Os meninos desabafam: “a nossa avó sequer aguenta andar. Além dela, não temos mais ninguém, sendo assim, se não formos à rua pedir ajuda, dormimos com fome”, relatam.

ADULTOS MALVADOS

Sói dizer-se que a rua é para quem tem cabedal para aguentar o frio e a fúria. A ideia ganha respaldo quando associada à vida de quem nela se vira numa busca desenfreada por alguns tostões. “Várias vezes somos ameaçados, somos agredidos e levam o dinheiro que conseguimos no dia. Mas, por falta de comida em casa, somos obrigados a fazer a mesma coisa na manhã seguinte”, contam os irmãos. Leia mais…

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