- Afirma Mary Louise Eagleton, representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF)
A poucas horas da celebração do Dia Mundial da Criança, a representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Mary Louise Eagleton, deu a sua primeira entrevista ao nosso jornal, na qual abordou as bases para a protecção das crianças.
Ao longo da conversa, Mary Louise não se desviou de um dos temas que actualmente mais afectam a infância no país – o terrorismo. Reflectiu sobre a crise humanitária que assola o Norte, cujo rosto é também infantil.
Falou da experiência mundial da UNICEF, no trabalho com crianças afectadas por conflitos armados, e do seu trabalho no Sudão, país com a pior crise humanitária resultante da guerra, e defende que as crianças vítimas de conflitos armados são mais vulneráveis. Abordou, ainda, os programas que a UNICEF está a implementar no país em diferentes áreas como mudanças climáticas, saúde, género e protecção.
No que diz respeito ao cumprimento da Convenção do Direitos das Crianças, que Moçambique ratificou em 1994, a representante do UNICEF recorda que o registo de nascimento é o primeiro passo para conferir uma identidade e direitos a qualquer criança. Também aponta o investimento na Educação como sector “chave” para quebrar o ciclo de pobreza, que afecta 77 por cento das crianças moçambicanas e fala de um projecto digital deducação ainda na “forja”.
Quais são, para a UNICEF, os maiores riscos que a criança ainda enfrenta em Moçambique?
Os riscos e desafios são múltiplos. Na parte ambiental, temos as mudanças climáticas que têm se reflectido através da ocorrência de ciclones, cheias e secas que expõem as crianças a vários riscos. Por isso, damos um passo à frente e, depois, recuamos dois. Isto contribui para a pobreza, que é a base de todos outros riscos. Devemos trabalhar para a resiliência e adaptação às mudanças climáticas. O mais importante é que elas acessem aos seus direitos, quebrando este ciclo de pobreza.
Como olha para a situação da criança face ao terrorismo em Cabo Delgado?
O terrorismo tem deslocado e continua a deslocar comunidades inteiras, promovendo mais pobreza. Estima-se que 77 por cento das crianças vivem em situação de pobreza no país. Ainda temos 412 mil pessoas deslocadas e mais de 50 por cento delas, em alguns casos, até 65 por cento, são crianças. Muitas vezes, estes grupos armados recrutam crianças para as suas fileiras, para obter mais combatentes, mas também para as manter como reféns, solicitar resgate e, com isso, ganhar dinheiro.
Qual tem sido o maior desafio no momento?
A nossa prioridade é resgatar essas crianças e trazê-las de volta em segurança para as suas comunidades, para que possam reconstruir as suas vidas. Damos assistência, pois chegam com traumas porque foram forçadas a ser militares e escravas sexuais. Leia mais…



