A história de Amina, como passamos a tratá- -la, para proteger a sua identidade, é apenas uma amostra das várias testemunhadas neste país e que não chegam às páginas dos jornais ou telas de televisão. Aos 14 anos, sobreviveu a duas realidades que nos últimos tempos têm ensombrado a vida de crianças, sobretudo meninas, na província de Cabo Delgado: o terrorismo e a obrigação de se tornar mulher de um homem adulto.
Foi há quase dois anos que sua vida tomou novo rumo. Certo dia, quando regressava da escola, foi interpelada por um homem mais velho que manifestou a vontade de a tornar sua mulher. “Eu falei que não podia, porque sou criança. Ainda assim, disse que iria a minha casa falar com meus pais”, recorda.
O senhor cumpriu com a promessa e seu progenitores forçaram-a a aceitar, sob o argumento de que só assim ela podia apoia-los, pois eles eram pobres. Amina viu-se a forçada a viver debaixo do mesmo tecto por quase dois anos com o suposto marido. Neste período, sofreu violência física, sexual e psicológica. Quando a situação estava crítica, buscou apoio na comunidade em que vivia, no distrito de Meluco, e queixou- -se aos seus pais, mas em vão. “Diziam-me que não podia abandonar o lar e que um dia ele mudaria. Passei a partilhar o que passava com as minhas amigas e elas aconselharam-me a pedir ajuda a uma activista que trabalhava numa escola. Os activistas foram à casa falar com ele. Mesmo assim, continuava a maltratar-me.
Cansada de maus tratos, certo dia organizou clandestinamente os seus pertences e abandonou a casa onde vivia com o suposto marido. Deixou- -o sair e na sua ausência pegou em si e desapareceu. “Eu é que estava a sentir o que se passava, por isso fugi para casa dos meus pais. Mas lá, ele perseguia-me. Foi assim que minha irmã me levou para viver com ela aqui em Pemba”, partilha. Nesta união, ficou grávida duas vezes e perdeu ambas.
A primeira, no segundo mês de gestação, e a segunda, no quinto. Natural do distrito de Meluco, também sofreu as incursões dos grupos insurgentes. Viu a casa onde nasceu ser queimada. Vezes sem conta foi obrigada a abandonar a sua aldeia com a família para zonas mais seguras. Numa das fugas, seu avô materno foi morto pelos grupos armados. Esta realidade perseguiu-a mesmo quando vivia com o suposto marido. “Depois que me entregaram para aquele homem, fomos atacados. Ele levou-me para Chiúre”, partilha. Leia mais…



