TEXTO DE DIOGO PINTO, DA LUSA
A exigência intransigente de Noémia de Sousa em publicar a sua obra primeiro em Moçambique e a complexa operação adiaram por décadas a edição do livro “Sangue Negro”, cuja publicação só avançou em 2001, revelaram os investigadores envolvidos no processo.
Segundo a investigadora Fátima Mendonça, a poesia de Noémia de Sousa (1926-2002) traduz “uma visão em que se combina a perspectiva de ser negro com a situação do ser negro enquanto ser colonizado”, marcada pelo retrato fiel dos “tipos sociais moçambicanos” da época, desde os trabalhadores do cais aos periféricos e às prostitutas.
Num tempo em que o crivo do “lápis azul não parava”, os poemas da “Mãe dos poetas moçambicanos” não eram notados pela censura, pois o que interessava ao Estado português era a autora, contou Fátima Mendonça, explicando que “a PIDE estava mais interessada nela” devido à sua participação em grupos com acções antissistema.
O professor e crítico literário Francisco Noa acrescentou que a censura, que “era muito severa nos anos 40”, transformou-se num incentivo para os poetas, pois tornou-se “numa espécie de maior capacidade de elaboração poética para que as coisas não fossem translúcidas, tão imediatamente perceptíveis, sobretudo pelo regime”.
Entre os 46 poemas do livro “Sangue Negro”, “Deixa passar o meu povo” tornou-se, em África, “uma espécie de bandeira de libertação africana”, sublinhou Fátima Mendonça.
Segundo o escritor e editor Nelson Saúte, a ideia de publicar o livro era antiga. Leia mais…



