– afirma Hersínia Manjate, especialista em Investimentos na Bolsa de Valores, que alerta para a fraca cultura de investimento e o seu impacto no crescimento das empresas e da economia
No contexto moçambicano, abrir um negócio ainda é, muitas vezes, uma resposta imediata às dificuldades de rendimento e não necessariamente uma estratégia para construir património a longo prazo. A mesma lógica repete-se na relação dos cidadãos com o dinheiro. Ganha- se para consumir, enquanto a poupança e o investimento continuam a ocupar um espaço reduzido nas decisões financeiras das famílias.
Para a especialista em inteligência financeira e investimentos na Bolsa de Valores, Hersínia Manjate, é preciso mudar esta mentalidade e transformar o dinheiro numa ferramenta de construção de património. Em entrevista ao domingo, defende que o mercado de capitais pode desempenhar um papel mais relevante no financiamento à economia, permitindo às empresas encontrar alternativas ao crédito bancário e aos cidadãos colocar as suas poupanças a trabalhar para eles.
Manjate considera, entretanto, que o desenvolvimento da Bolsa de Valores (BVM) passa também por uma mudança na forma como os moçambicanos criam e gerem os seus negócios. A falta de contabilidade organizada, estruturas empresariais frágeis e ausência de uma visão a longo prazo dificultam o acesso das empresas ao mercado de capitais e a outras fontes de financiamento.
Como avalia o estágio actual do mercado de capitais em Moçambique e qual tem sido, efectivamente, o seu papel no financiamento da economia?
O mercado de capitais é relativamente novo. A própria Bolsa de Valores tem cerca de 27 anos, o que é pouco quando comparado com outras bolsas que conhecemos internacionalmente. Portanto, ainda estamos numa fase de crescimento e expansão. Actualmente temos uma média de 11 empresas cotadas, e muitas delas recorrem à Bolsa para obter capital que não seja necessariamente crédito bancário, permitindo financiar operações e expandir os seus negócios.
Onze empresas é pouco para uma economia como a moçambicana?
Sim, é pouco. Mas temos de compreender que a entrada na BVM é um processo rigoroso. Estamos a falar do dinheiro de outras pessoas e até do próprio Estado, que também participa no mercado. Por isso, tem de existir rigor antes de uma empresa ser admitida. O facto de termos novas empresas a candidatarem-se mostra que existe interesse e que o mercado está a crescer.
O que impede que mais empresas, sobretudo pequenas e médias, cheguem à Bolsa?
Um dos maiores obstáculos é a existência de uma contabilidade organizada, porque grande parte dos negócios em Moçambique é criada a pensar na sobrevivência dos proprietários. Não existe necessariamente uma visão de longo prazo. São empresas que, muitas vezes, não têm um capital social robusto, contabilidade organizada ou uma estrutura fiscal adequada. Há empresas que são economicamente robustas, mas continuam estruturalmente frágeis. Algumas até conseguem entrar na Bolsa, mas, posteriormente, quando são avaliadas, verifica-se que já não cumprem determinados requisitos e acabam por ser retiradas da lista. Leia mais…



