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Empreender exige mais do que uma boa ideia

Por Jornal domingo
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POR ANTÓNIO GASPAR MABUNDA*

Falar de empreendedorismo em Moçambique é, inevitavelmente, falar de juventude, desemprego e procura de alternativas para garantir rendimento e construir um futuro melhor. Dados recentes do Afrobarometer mostram que cerca de 46% dos jovens moçambicanos afirmam que, se tivessem escolha, prefeririam iniciar o seu próprio negócio. Isto demonstra que existe vontade de empreender. O problema é transformar esse desejo em empresas sustentáveis, capazes de sobreviver, crescer e criar empregos.

Entretanto, um dos maiores erros cometidos pelos jovens é confundir ter um projecto de negócio com ter uma empresa. Uma ideia pode nascer numa conversa, observação do mercado ou até necessidade pessoal. Uma empresa, porém, exige muito mais: clientes, gestão, capital, disciplina, estratégia, conhecimento do mercado e capacidade de enfrentar momentos difíceis.

O primeiro passo para um jovem que pretende empreender é identificar um problema real e encontrar  solução pela qual as pessoas estejam dispostas a pagar. Não basta copiar o negócio de outra pessoa porque aparentemente dá dinheiro. É necessário perguntar: quem é o meu cliente? Que problema estou a resolver? Quanto ele está disposto a pagar? Quem são os meus concorrentes? O que farei de diferente?

O segundo passo é conhecer profundamente o negócio antes de procurar financiamento. Em Moçambique, o acesso ao capital continua a ser um dos grandes desafios para os pequenos empreendedores. Por exemplo, na primeira fase do Fundo de Desenvolvimento Económico Local, mais de 354 mil projectos foram submetidos, mas apenas cerca de 13 mil foram aprovados.

Por isso, o jovem não deve começar a pensar onde vai conseguir dinheiro, mas em como provar que o seu negócio funciona. Um pequeno empreendimento que consegue conquistar os primeiros clientes, controlar custos e gerar lucro tem muito mais possibilidades de convencer um financiador do que uma grande ideia apresentada apenas no papel.

Outro aspecto fundamental é separar o dinheiro da empresa do pessoal. Muitos negócios morrem não porque não têm clientes, mas porque o proprietário retira todo o valor que entra, mistura as despesas da família com as da empresa e deixa de saber quanto realmente está a ganhar. Empreender exige disciplina financeira: registar receitas e despesas, calcular custos, definir preços correctamente, reservar dinheiro para impostos, reinvestir parte dos lucros e criar uma pequena reserva para períodos difíceis.

Os jovens precisam também saber vender. Um empreendedor pode ter o melhor produto, mas se não souber comunicar o seu valor, conquistar clientes e construir relações comerciais, dificilmente crescerá. Vender não significa enganar; mas saber explicar porque o produto ou serviço merece a preferência do consumidor.

Os jovens devem, igualmente, aproveitar melhor as tecnologias digitais. Hoje em dia, uma pequena empresa pode utilizar redes sociais para divulgar produtos, WhatsApp para atender clientes, ferramentas digitais para controlar vendas e plataformas online para procurar fornecedores e oportunidades. A tecnologia não substitui uma boa gestão, mas pode reduzir custos e permitir que esta alcance clientes muito além do seu bairro.

Outro ponto importante é a formalização. Muitos negócios começam no sector informal e isso pode ser compreensível numa fase inicial. Porém, quem pretende construir uma empresa de longo prazo deve procurar, progressivamente, formalizar-se, organizar a documentação, cumprir as obrigações fiscais e manter registos financeiros. A formalização pode abrir portas para contratos maiores, financiamento, parcerias e participação em cadeias de fornecimento.

Construir uma firma de sucesso exige paciência. Existe hoje uma cultura de querer resultados imediatos, alimentada pelas redes sociais, onde se mostram carros, escritórios e negócios aparentemente bem-sucedidos, mas raramente se mostram os anos de dificuldades que estiveram por trás deles. Uma empresa sólida não se constrói em três meses. É erguida através de pequenos clientes conquistados, erros corrigidos, lucros reinvestidos e confiança acumulada.

Os jovens moçambicanos devem, portanto, abandonar a ideia de que empreender é simplesmente uma alternativa ao desemprego. Empreendedorismo deve ser encarado como uma profissão e como uma responsabilidade. Quem cria uma empresa, não gera apenas uma fonte de rendimento para si; mas oportunidades para outras pessoas, desenvolve fornecedores nacionais, paga impostos e contribui para a economia.

Moçambique precisa de jovens que não estejam apenas à procura de emprego, mas que tenham capacidade de criar empresas capazes de empregar outras pessoas. Para isso, não basta distribuir financiamento. É necessário construir uma cultura empresarial baseada em conhecimento, ética, inovação, disciplina e persistência.

No fim, a pergunta que cada jovem deve fazer não é apenas quanto dinheiro preciso para começar, mas sobretudo: que problema consigo resolver do que os outros e como posso transformar essa solução numa empresa sustentável?

*Auditor e consultor em Contabilidade

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