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ACIDENTES E INVALIDEZ: Perder quase tudo no trabalho

Por Luísa Jorge
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O caminhar camaleónico de Hortência Mabunda, de 39 anos, contrasta com a idade que possui. A cada cinco passos, seu organismo obriga a uma pausa para recuperar o fôlego.

O acto não é apenas para aliviar a dor física que a consome, mas também para atenuar o fardo emocional que carrega consigo, como uma cruz às costas, num calvário cujo fim ainda é incerto. Os consecutivos acidentes de trabalho que sofreu lhe tiraram quase tudo.

A saúde física, a sexual, o cônjuge, o ser mãe, o salário e, aos poucos, a esperança de um futuro melhor começa a desintegrar- -se de si. Hortência sofreu o primeiro acidente a 4 de Fevereiro de 2020, na manhã de terça-feira, quando fazia colecta de papaias nas plantações da empresa “Carttaz”, localizada na Moamba, província de Maputo.

O infortúnio ocorreu quando se preparava para descer de uma escada, na qual se apoiou para arrancar papaias, de onde se desequilibrou e um dos pés do equipamento atingiu-a, perfurando a sua genitália, a ponto de sangrar pela vagina. “Quando picou-me, não consegui mais me assegurar,devido a dor, e caí de costas com o pé da escada dentro de mim. Minha colega gritou a pedir ajuda. Fui socorrida e levada à ginecologia do Centro de Saúde da Moamba”, relatou.

Os dias subsequentes foram de idas e vindas ao hospital, a fim de receber tratamento médico. Foi assim durante dois anos, até que o gestor da empresa onde trabalhava a aconselhou a solicitar um relatório médico, ao que assim procedeu.

No hospital, a médica ginecologista falou do seu estado delicado e recomendou que poderia voltar a sua actividade laboral, porém exercendo apenas tarefas que não exigissem muito esforço físico. Entretanto, esta não foi seguida à risca. “Não podia reclamar, pois era dali que saía o meu salário. Os dias que não me aguentasse, ligava à empresa a avisar que ia ao hospital e, no dia seguinte, tinha que apresentar o comprovativo”, recorda.

No entanto, em 2024 volta a ter outro acidente de viação a caminho do seu posto de trabalho. “Uma peça do camião que transporta, quebrou- -se e a viatura despistou. Os meus colegas foram projectados para cima de mim. Fui arrastada para um ferro que me apertou na bexiga. De tanta pressão, acabei por desmaiar e só despertei no Hospital Provincial da Matola”, recorda.

Este acidente veio a piorar a sua condição física. Por mais ano, voltou a rotina de medicação e cuidados médi-cos, devido à dor intensa. Foi recomendada para repousar. Em meados do ano passado, a entidade patronal, comunicou a jovem que retornasse ao trabalho. Hortência tentou recomeçar. “Não conseguia subir e ficar em pé no camião e, à chegada na empresa, estava com dores que não conseguia trabalhar. Um dos responsáveis não me permitia sentar ao lado da cadeira do condutor e dizia que devia começar a acostumar- -me à rotina”, esclarece.

A última vez, trabalhou por três dias e, no fim, foi parar ao hospital com febres e dores. A médica passou-lhe atestado para repouso total. Em Fevereiro do presente ano viu o salário reduzido novamente para metade. Passou de 6900 para 3000 Meticais. Recebeu a ameaça de não poder receber os honorários no corrente mês, caso não voltasse a apresentar-se no posto de trabalho. E, assim foi. Não recebeu o seu salário. A empresa solicitou uma junta médica que aguarda por resultados, os quais deverão sair dentro de dias.

ABANDONADA COM QUATRO FILHOS

A vida de Hortência mudou completamente. Tem quatro filhos em idade escolar, dos quais a mais velha – Teresa de 22 anos – está a frequentar o ensino superior. Diz que não conta com apoio de ninguém para cuidar da casa e dos filhos. Quando a sua situação de saúde se tornou crónica – com o segundo acidente de trabalho – o seu companheiro a abandonou. Começou a dormir fora de casa e só vinha aos fins-de-semana. Depois, saiu de vez. “Nunca me falou os porquês, mas sei que é pelo facto de não o poder satisfazer como mulher. Mas, minha saúde não permite”, afirma.

731 ACIDENTES NO ANO PASSADO

Os sectores de Agricultura, Indústria Transformadora, Construção Civil, Transportes, Comércio e Serviços são os que mais acidentes registam. Só no ano transacto foram notificados 731 casos de acidentes de trabalho em todo o país.

Destes, 77 por cento resultaram em incapacidade temporária; 11 em invalidez permanente e total; 10 em incapacidade permanente parcial e dois por cento em morte. Analisando por um período mais extenso, dados de 2019 a Junho de 2025 apontam que foram registados 3.210 acidentes de trabalho, contra 5.125 ocorridos no período homólogo, isto é, de 2014-2018 o que revela uma redução na ordem de 1.915 casos. Do sector Agro-pecuário, Indústria do Cajú e Florestas, o Sindicato (SINTAICAF) contabilizou, no ano passado, 1.077 acidentes de trabalho.

Destes, 11 resultaram em invalidez total do trabalhador. No ano passado, o sindicato do sector da Construção Civil, Madeiras e Minas recebeu seis casos de acidentes de trabalho, todos ocorridos numa empresa mineradora, dos quais dois resultaram em morte. No entanto, de acordo com os sindicatos, os números nem sempre correspondem ao que ocorre no terreno, pois nem todas as empresas reportam os acidentes. Leia mais…

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