Texto de Sousa Gastão
Entre numa superfície comercial de Maputo, da Beira, de Nampula ou de qualquer outra cidade do país, a qualquer hora do dia e observe com atenção. Verá consumidores a escolher produtos embalados pela cor da embalagem, pelo preço promocional ou pela promessa impressa na frente. Um sumo com fruta desenhada que pouco ou nada tem de fruta. Uma bolacha com a palavra “natural” em letras grandes. Um cereal com a imagem de uma criança sorridente e saudável.
A frente da embalagem foi desenhada para convencer. A informação realmente importante, quase sempre, está no verso. E a maioria das pessoas nunca a lê. Não é negligência. É o retrato de um país que, durante décadas, tratou a educação alimentar como detalhe curricular e a literacia nutricional como privilégio de especialistas.
DO CARRINHO ÀS DOENÇAS CRÓNICAS
A Organização Mundial da Saúde estima que as doenças não transmissíveis, hipertensão, diabetes tipo 2, obesidade e doenças cardiovasculares já representam cerca de 40 por cento da mortalidade nos países de rendimento médio e baixo da África Subsaariana, com a urbanização acelerada e a mudança de padrões alimentares como factores centrais.
Moçambique não escapa a esta tendência. Maputo, Matola, Beira e Nampula registam crescimento preocupante destas condições, alimentado em parte pelo consumo crescente de produtos ultraprocessados, bolachas, refrigerantes, cereais açucarados, sumos industriais e snacks que chegaram às prateleiras e às barracas escolares muito antes de qualquer política pública de resposta.
A criança que come bolachas no recreio/ intervalo de uma escola da Maxaquene não sabe que o primeiro ingrediente é açúcar refinado. O pai que compra um sumo de caixa porque a embalagem mostra laranjas frescas não sabe que aquele produto contém mais xarope de glicose do que fruta. Ninguém os ensinou a interrogar o que está escrito. E o que não se questiona, consome-se sem escolha real. Leia mais…



