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O drama dos moradores de rua

Por Jornal domingo
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TEXTO DE MICAELA MEQUE

Todas as noites, quando o movimento abranda e o silêncio toma conta da cidade de Maputo, João Mandlate estende um pedaço de papelão no passeio do Jardim dos Professores, na Avenida Patrice Lumumba. É ali, entre árvores, contentor de lixo, carros estacionados e algum movimento de pessoas, onde encontra abrigo para enfrentar mais uma noite ao relento.

Aos 45 anos, já não estranha o frio da madrugada nem o barulho dos automóveis que rompem o silêncio ao amanhecer O que nunca conseguiu aceitar foi o caminho que o levou até ali. Tinha apenas nove anos quando perdeu os pais. Sem alternativa,foi acolhido pelo irmão mais velho.

Para ele, a nova casa, nunca chegou a ser um lar. Os desentendimentos constantes e a difícil convivência fizeram-no tomar uma decisão que mudaria para sempre a sua vida, abandonar a família e procurar refúgio nas ruas da cidade.

Já naquela situação, foi resgatado por uma equipa de assistência social e encaminhado para o Orfanato Dom Bosco, onde permaneceu por cinco anos. Ali voltou a dormir numa cama, frequentou uma escola e alimentou a esperança de recomeçar. Contudo, influenciado por amizades feitas fora da instituição, decidiu abandonar o orfanato e regressar às ruas. Desde então, os passeios, jardins e entradas de edifícios tornaram-se o seu lar. Hoje, sobrevive graças a biscates.

Quando consegue, lava ou controla viaturas estacionadas em troca de algumas moedas. Nos dia em que o trabalho escasseia, recorre a contentores de lixo para obter restos de alimentos que lhe permitam enganar a fome. “Existem pessoas de boa-fé que sempre que podem trazem alguns alimentos e roupas pra nós. É o que me mantém vivo”, contou, com a serenidade de quem aprendeu a sobreviver da pior forma possível.

Diante desta situação, a vida na rua trouxe-lhe uma luta ainda mais difícil. Durante os anos que passou a viver sem qualquer protecção, contraiu o HIV, uma realidade que agravou ainda mais a sua vulnerabilidade. João descobriu o seu estado serológico após um mal-estar que o levou a uma unidade sanitária.

“Há dois meses que não faço o tratamento anti-retroviral e não sei nem se quer explicar os reais motivos que me levam a não cumprir com o tratamento, pode ser pelo vício de álcool que tenho. Este é um outro problema que enfrento”, confessou. Leia mais…

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