TEXTO DE ISABEL JEREMIAS
As obras de construção da praia artificial na cidade de Chimoio, província de Manica, continuam sem sinais visíveis de progresso, volvidos mais de dois anos após a promessa feita pelo autarca de Chimoio, João Ferreira, durante a campanha eleitoral das autárquicas de 2023.
A iniciativa despertou curiosidade e entusiasmo entre os munícipes de Chimoio e residentes de outras regiões da província e do país, por se tratar da primeira infra-estrutura do género a ser erguida no país. Porém, o projecto está praticamente parado, numa altura em que faltam apenas dois anos para o fim do mandato do actual presidente do município, João Ferreira.
A nossa Reportagem visitou o local onde o projecto está a ser executado, nas imediações do monte Cabeça do Velho, e constatou que a obra se mantémadormecida desde o lançamento da primeira pedra, em Dezembro passado, numa cerimónia testemunhada por líderes comunitários, funcionários do município, órgãos de comunicação social e populares.
Depois daquela cerimónia, observou-se uma movimentação de homens que abriram valetas para construção da fundação, mas, pouco depois, o espaço foi tomado pelo silêncio até ao momento, num cenário característico de abandono.
Ali, apenas são visíveis as referidas valetas que remetem para a construção de uma piscina com aproximadamente três metros de profundidade, sem qualquer movimentação de máquinas ou trabalhadores, e o espaço começa a ser tomado pelo capim e demais vegetação que cresce no local.
Ouve-se apenas o canto dos pássaros, o murmúrio das orações de alguns crentes que frequentam a montanha para práticas religiosas e a brisa que sopra do cimo do monte, uma estrutura rochosa que muitos associam à figura da cabeça de uma pessoa idosa deitada de costas. Alguns fiéis consideram a área sagrada e mostram receios quanto à construção da praia naquele ponto, que é usado por muitos para um retiro sagrado.
Ao lado da escavação encontra-se um contentor deixado supostamente para o armazenamento de material de construção da referida obra, já com sinais de vandalização.
A obra também não possui placa informativa, situação que contraria as normas básicas da construção civil e de engenharia, uma vez que não há indicação do empreiteiro, custos da obra, prazo de execução ou entidade fiscalizadora. Também não encontramos vestígios de materiais de construção nem trabalhadores.
Aliás, a propósito de custos, numa entrevista concedida ao jornal Notícias, no ano passado, João Ferreira afirmou que o financiamento desta empreitada seria assegurado por parceiros diversos e escusou-se a mencionar valores.
LENTIDÃO GERA DÚVIDAS
A demora na execução do projecto começa a gerar dúvidas entre os munícipes sobre o real prazo de execução e possibilidade de conclusão da praia artificial.
Afonso José, de 22 anos, residente no bairro Vila Nova, afirmou que já perdeu a esperança em relação à concretização da promessa. “Passaram mais de dois anos desde a promessa da praia artificial pelo nosso autarca e estamos a meio do mandato. Falta pouco tempo para a realização das próximas eleições e parece que estamos diante de uma miragem. Enquanto a praia não fica pronta, continuo a procurar lagoas e cachoeiras para me refrescar nos dias de calor”, lamentou.
Claudina Oniasse, residente no bairro 25 de Junho, disse que recebeu a notícia da construção da infra-estrutura com entusiasmo. Sublinhou que a sua alegria resultou do facto de nunca ter tido uma oportunidade de conhecer uma praia.
“Tenho 50 anos e nunca fui à praia. Quando ouvi a promessa fiquei muito feliz. O meu desejo é ver essa obra concluída ainda neste mandato. Tenho netos em Macossa que só conhecem praia através dos livros e filmes. Sonho em levá-los à praia artificial de Chimoio para mergulharmos juntos, porque não tenho condições para viajar até às províncias costeiras”, disse, para depois questionar: “Quando é que teremos praia afinal?”
Por sua vez, Celina António, também residente em Chimoio, mostrou-se céptica quanto à materialização do projecto. “Um dia subi ao monte para ver se realmente havia pessoas a trabalhar, mas apenas vi uma pequena cova aberta. Quando se faz uma promessa ao povo é preciso avaliar a viabilidade do projecto para não se perder a confiança dos munícipes. As autoridades devem falar de coisas concretas”, afirmou.
Apesar das dúvidas, Celina considera que a iniciativa seria importante para a cidade e apela ao município para redobrar esforços, uma vez que a existência de uma praia poderá abrir oportunidades para a realização de negócios e consequente aumento da arrecadação de receitas para o município de Chimoio e a província no geral.
Enquanto isso, Richard Júnior, comerciante em Chimoio, entende que o município devia priorizar sectores considerados essenciais antes de avançar com a construção de uma praia artificial. “Temos bairros com problemas graves de saneamento, estradas esburacadas, falta de água e muitos outros desafios. Penso que o município devia resolver primeiro essas questões antes de pensar em praia”, referiu.
Richard acrescentou que a via de acesso ao local das obras da praia está degradada, o que dificulta a circulação de pessoas e bens.
Enquanto persistem as dúvidas e expectativas em torno do projecto, a praia artificial de Chimoio continua apenas como uma promessa cercada de silêncio, capim e incertezas, como as imagens ilustram.



