- Rómulo Muthemba, psicólogo clínico, em entrevista ao domingo, na qual chama
atenção para existência de “coaches” sem formação técnica que vendem “sonhos”
A fundação da personalidade repousa sobre a qualidade das relações precoces. Esta é uma ideia discutida com o psicólogo clínico Rómulo Muthemba, que, entre várias questões, explora o conceito de “egos distónicos”, desenvolvido na sua obra “Dilemas e Fascínios da Mente” (2021). Fala, na sequência, do uso de redes sociais, onde “o que está lá é o dito, mas que esconde o interdito e a verdade, que é o fundamental”, observa.
Muthemba chama ainda atenção para a ascensão de “coaches” sem formação técnica, que vendem “sonhos”, substituindo profissionais qualificados. E quando instado a prescrever uma medicina para a humanidade, dispara o seguinte: “Doutores não fazem pessoas”.
Abaixo a conversa na íntegra com um profissional da Saúde que há mais de 22 anos se entrega de corpo e alma ao cuidado de pacientes em diferentes hospitais e clínicas do país, tendo já actuado no Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital Central de Maputo (HCM) e integrado à equipa de Peritagem Psiquiátrica Forense no Serviço de Medicina Legal.
Comecemos por discutir o conceito de “egos distónicos”, que é referido na sua obra.
Existe na formação da personalidade dos sujeitos aquilo que nós chamamos de ego, que é construído numa relação precoce com os pais ou com a fundação nuclear (pais ou representantes) e que pode propiciar que a pessoa tenha um ego mais saudável, funcional. Quando falamos de egos distónicos referimo-nos a um ego formado de maneira deformada.
Não saudável…
Sim! Então, usamos este distónico exactamente referindo-nos a essa parte doentia do “eu” da pessoa, que interfere com a identidade. E se a identidade está mal construída também provoca problemas nos outros.
Hoje em dia é notável a construção de um ego idealizado, sobretudo em rede social, uma imagem que muitas vezes não condiz com a essência do indivíduo. Quer comentar e, talvez, avançar alguns factores por detrás deste fenómeno?
As redes sociais são muito importantes principalmente se elas cumprirem o propósito a que estão destinadas, que é prestar informação útil até para promoção da saúde, para prevenção de doenças, etc.
O que acontece é que há falta de limites neste campo. É dos locais mais fáceis de projectar aquilo que não sou, de manipular a minha identidade, mas também de exposição por excelência. Para dizer que nós conseguimos ver nelas muitos movimentos disfuncionais e dificilmente (para questão que me colocou) vamos ter ali uma aferição sobre a verdadeira identidade.
A rede social funciona como uma máscara, em que o que está lá é o dito, o projectado, mas que esconde o interdito, o interior, e a verdade que é o fundamental. Então, aparece como algo projectado de acordo com a desejabilidade social, de como gostaríamos de ser vistos. Mas, dificilmente conseguimos colocar lá nessa tela – que nós chamamos tela da sobrevivência – a verdadeira identidade. Daí os perigos todos que isto pode acarretar. Leia mais…



