O lançamento mundial do filme “Homem Aranha: Um Novo Dia”, veio destapar um véu que nos devia envergonhar como sociedade. Sabemos do problema, mas fingimos que não existe e refugiamo-nos na urgência do pão para as nossas famintas bocas. Mas não é só de pão que vive o homem… E isso ficou transparente há dias; é que enquanto o mundo entrava literalmente em transe por causa do “cabeça de teia”, nós, por cá, estupidamente incrédulos, viamos tudo pelas redes sociais.
Descobriamos, da pior maneira possível, que nem no terceiro mundo estamos mais… mergulhamos de cabeça na Fossa das Marianas. Obliteramos a nossa própria existência. Somos ninguém! Mas já fomos gente.
Tínhamos o Gil Vicente, Cine África, Olímpia… nomes, relíquias que o tempo, a incúria, o descaso e o boçalismo trataram de eliminar do nosso quotidiano. Em tempos, imponentes salas de cinema e de outros eventos artístico culturais, hoje sombras fantasmagóricas que assombram o nosso imaginário colectivo. Hoje esses espaços estão encerrados, vítimas da má gestão, do abandono e, em muitos casos, da ocupação abusiva por seitas religiosas.
Em vez de preservados como património cultural, muitos edifícios foram descaracterizados ou simplesmente deixados à degradação. Várias dessas salas estão literalmente a cair aos pedaços, reflectindo o estado de abandono da cultura.
O caso do Cine África é particularmente simbólico. Durante anos, foi palco de memoráveis espetáculos da Companhia Nacional de Canto e Dança, acolhendo artistas e públicos de diferentes gerações e latitudes. Vimos ali N´tsay, A Noiva de Nha- -Kebera, mas também vimos Salif Keita, Memphis Slim. Apreciámos o Quinta no África. Vimos naquela sala diversas finalíssimas do Ngoma Moçambique e do Top Feminino. Hoje, permanece encerrado sob a promessa de obras de reabilitação que nunca chegam.
O silêncio que ocupa aquele espaço representa uma perda que vai muito além das paredes do edifício: é o silêncio de uma cidade privada de um dos seus centros de criação e difusão cultural. .Leia mais…


