Há artistas que sobem aos palcos para serem aplaudidos. Outros descem deles e continuam a ser celebrados pela vida fora. São aqueles que conseguem transformar a arte numa espécie de património colectivo, uma memória que não pertence apenas aos livros, aos arquivos ou às instituições, mas também às pessoas que, um dia, foram tocadas pela sua criação. Chico António era um desses artistas.
Recordo-me de um episódio, ocorrido em Abril de 2016 na paragem “Expresso”, em Maputo. Seguíamos de carro para Marracuene para mais um “Café Debate” quando, de repente, uma multidão reconheceu o músico. Foi como se alguém tivesse anunciado, sem microfone, a chegada de uma figura extraordinária. As pessoas aproximaram-se, cercaram o carro e, num entusiasmo difícil de conter, praticamente imobilizaram-nos. Não havia como avançar. O trânsito podia esperar. Naquele instante, a prioridade era outra: Chico António tinha de cantar.
E foi assim que, para deixarem-nos seguir viagem, impuseram-nos uma condição tão insólita quanto reveladora da dimensão popular do músico: cantar “Baila Maria.” Imagino que, para um artista habituado aos palcos e aos aplausos, aquela exigência pudesse parecer uma interrupção inesperada. Mas havia qualquer coisa de profundamente bonito naquele encontro espontâneo. Não se tratava de um espectáculo anunciado ou de uma cerimónia organizada para homenagear uma celebridade. Era o povo a reclamar o seu artista, a querer ouvi-lo ali, no meio da rua, como quem exige a devolução de uma alegria que lhe pertence. Leia mais…


