POR ALMIRO SANTOS
A chama do isqueiro ilumina, momentaneamente, o rosto da mulher. Nota-se que os traços que lhe sulcam a face anteciparam-se à idade, enganando a visão desalumiada de uma noite parda e chuvisca, a madrugada a adentrar pelos ossos da fumante, mais do que a nicotina, uma sombra de ébano coberta pelos trapos de Guanabara.
Tudo começa por um cigarro, esse gesto obsceno aos pulmões, à porta de um hotel aristocrático, de sono perdido no “jet lag” dos fusos horários, o fumante moçambicano continua a observar a genuína habitante de Guanabara, tragos profundos ao cigarro oferecido, já quase um coto pela sofreguidão.
-Estava mesmo a precisar – comenta a “deusa de ébano”, olhos entristecidos pela condição de moradora de rua.
Berta faz parte de um contingente de cerca 8 mil pessoas que vivem nas ruas de Rio de Janeiro, num horizonte de 17 milhões de habitantes da cidade “carioca”, diz que está na rua porque caiu nas malhas do “crack”, uma droga sintética disseminada pelas ruas do Brasil, um dos maiores desafios para a saúde pública e segurança no país que agora vai a votos, numa segunda volta.
A mulher, que parece ter entrado em êxtase com o cigarro moçambicano, conta que está em tratamento, a desintoxicar-se, mas as frequentes recaídas fizeram com que os pais a deserdassem, mas ficando com o casal de filhos numa casa financiada pelo projecto “Minha Casa, Minha Vida”, lançado por Lula da Silva em 2009 e consolidado agora, em 2026, com novas regras, estas mais abrangentes.
Trémula, retira um pequeno retrato por entre os seios e o emaranhado dos trapos de Guanabara, que lhe cobrem o corpo de ébano do frio da madrugada, e mostra ao fumante moçambicano duas outras criaturas de ébano, saídas do seu ventre, estas sorridentes e longe do calvário da mãe, à sombra protectora dos avós.
Agora, aliviada pelo cigarro e pela imagem dos filhos, as lágrimas correm livremente pelo rosto de Berta, os sulcos na face tornam-se mais delicados, quase graciosos, revela-se uma mulher bela, com porte de rainha, faz lembrar, ao fumante moçambicano, a Rainha Nzinga, a mais soberana das angolanas, garbo a condizer, revelado pelos primeiros raios de Sol, a espreitar ao fundo da Baía de Guanabara, encimado pelo Cristo Redentor.
– Graças a Deus – diz, com a voz entre-cortada pela emoção – que os meus filhos não estão passando por isto.
O fumante moçambicano voltou do Rio de Janeiro sem a carga poluente sobrante, entregou todos os palmares à “Rainha Nzinga”, em troca recebeu a promessa de nunca desistir da desintoxicação, afinal o cigarro ainda é preferível ao “crack”; e mais importante, a promessa de proteger os seus filhos, votando no “Minha casa, Minha Vida”.
Berta, a “Rainha Nzinga”, amiga improvável do fumante moçambicano, votou em Lula para que os seus filhos não morem na rua, como ela. E vai votar outra vez no Lula, nesta segunda volta!


