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O “caos” no transporte público

Por Luísa Jorge
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Aescassez e consequente agravamento dos preços de combustíveis, anunciado quinta-feira última pela Autoridade Reguladora de Energia (ARENE), onde a gasolina passou de 83,57 Meticais para 93,86 e o gasóleo de 79,00 para 116,25 Meticais, vieram mudar a dinâmica do transporte público em todo o país. E, apesar de o Governo ter acordado subsidiar os operadores, 48 horas depois, a situação atingiu proporções insustentáveis. Paragem superlotadas e subida de preços por viagem deixaram os utentes e operadores num turbilhão de sentimentos.

Na sexta-feira, o dia nasceu aparentemente normal na cidade e província de Maputo, mas nas paragens e terminais rodoviários o semblante dos utentes que aguardavam pelo transporte era apreensivo.

A incerteza de que conseguiriam chegar aos seus postos de trabalho, à escola, entre vários destinos os dominava. Na Terminal de Transportes Públicos da Matola-Rio, a presença de camionetas, vulgos “My love”, posicionadas e a fazerem o transporte era predominante. E não era para menos.

Apesar do número considerável de carrinhas de transporte semicolectivo, grande parte deles estava com os motores desligados. Aguardava pelo veredicto final entre o Governo e a a Federação Moçambicana das Associações dos Transportadores Rodoviários (FEMATRO).

“Não vale a pena transportarmos as pessoas a 15,00 Meticais por viagem. Com o novo preço do diesel não ganhamos nada”, aponta Arlindo Muiambo, transportador na rota Mozal-Patrice Lumumba, quem alega que a solução está no aumento da tarifa de transporte.

Enquanto isso, de outra margem da estrada passageiros perfilam para entrar numa das poucas viaturas que circulavam. O cobrador de uma das carrinha de transporte, Yumi Domingos, antecipava o anúncio do novo preço que grande maioria adoptou na sua rota desde a escassez de combustíveis.

No bairro Beluluane, o custo de viagem da terminal de transportes da Mozal até a zona de Mavoco, no distrito de Boane, passou de 15,00 para 20,00 Meticais. Enquanto uns manifestam o seu descontentamento com murmúrios, outros continuavam a marcha para o interior da viatura.

Não temos alternativa. Eles acabam tendo alguma razão. O preço do gasóleo subiu demais. Não é possível manter os 15,00 Meticais. Isto sem contar que a estrada está degradada. Podem não estar licenciados, mas estão a ajudar-nos”, partilha Eduardo Bande.

Na terminal de Mavoco, Gringo João, também transportador, fala de como o dia iniciou e expõe o que mais o preocupa relativamente ao acesso ao subsídio. “Muitos colegas arrumaram os carros hoje, mas nós estamos aqui porque as pessoas também precisam de ir trabalhar. Tenho dúvidas em relação ao subsídio porque estou licenciado, mas nunca beneficiei deste. Soube que há pessoas da associação que registaram até seis carros que sequer existem, só para ter esse subsídio”, denuncia. Na paragem da Casa Branca, no bairro Trevo, ainda na província de Maputo, os autocarros chegam abarrotados, o que limita o número de passageiros que conseguem entrar nos carros a partir daquele ponto.

Nas primeiras horas, a situação também estava caótica. Contam os utentes. Alguns recorreram a boleias, com a contrapartida de pagarem o custo de travessia na Portagem de Maputo. Júlio Paluane estava há duas horas naquele lugar e mostrava- -se frustrado e já cogitava a possibilidade de desistir. Tinha intenção de ir à baixa da cidade tratar documentos. “Penso que até lá alguma coisa vai mudar”, consola-se.

Mais adiante, Lili encontra-se na mesma situação. Acompanhada por sua mãe, não teve mãos a medir em sair de casa mesmo ciente da realidade que a aguardava na paragem. “Não ti-nha como ficar em casa, ela tem consulta hoje. Saúde está em primeiro lugar.

O resto veremos como fazer”, sentencia. À semelhança de Matola-Rio, no posto administrativo da Machava, município da Matola, o transporte estava igualmente a meio gás. As camionetas também eram uma das opções existentes para deslocação. Apesar do perigo iminente devido à pouca segurança que viaturas oferecem, a aflição e desespero das pessoas em chegarem aos seus destinos fazia-os negligenciar o risco.

OPERADORES PARALIZAM ACTIVIDADES

Na cidade de Maputo, o cenário foi mais dramático ainda. Nas rotas de Xiquelene, Malhazine e Benfica, por exemplo, a circulação de transporte público esteve praticamente comprometida. No Terminal Rodoviário de Xiquelene, no distrito municipal KaMavota, a realidade era quase que paradoxal. De um lado a quantidade de gente desesperada à busca de transporte era elevada. No entanto, o número de semicolectivos vazios ali estacionadas também era considerável. Os transportadores paralisaram os serviços em protesto à subida dos preços de combustíveis. Alguns usaram aquele momento para “desenferrujar” as suas habilidades no jogo de “Damas” e colocar a conversa em dia. Contudo, os diálogos acabavam resvalando à situação que lhes tira o sono no momento: o serviço que prestam.

Enquanto uns dão largas à imaginação, verbalizando outras oportunidades de negócio, outros mostravam crer na possibilidade das coisas tomarem outro rumo, onde os transportadores e passageiros saem ambos a ganhar. Justino Mutemba, transportador há mais de 20 anos, faz a matemática. “Se nos fosse dado o preço de combustível a 90,00 ou 100,00 Meticais era razoável manter a tarifa de 15,00 na minha rota, por exemplo, que é Praça dos Combatentes-Museu, íamos trabalhar sem problema.

Antes por dia conseguia fazer 5.500,00 Meticais, dos quais 2.500,00 eram do patrão e o resto para combustível de 40 litros, que saía a quase 2900,00 para trabalhar no dia seguinte. Agora só para abastecer a mesma quantidade de gasóleo tenho que ter 6.000,00.

Comboio, moto-táxi e “my love”: os heróis da saga

Dada a escassez de transporte na sexta-feira última, grande parte dos utentes preferiu prevenir-se da hipótese de não conseguir regressar à casa. Por essa razão, a estação dos Caminhos de Ferro de Moçambique, na baixa da cidade de Maputo, registou um movimento totalmente atípico.

Até às 15h00, o recinto encontrava-se repleto de passageiros que pretendiam apanhar o comboio das 16h00 com destino a Matola-Gare. Devido a grande procura, as bilheteiras iniciaram com a venda mais cedo por forma a melhor organizar e evitar atrasos. Até às 15h30, as carruagens já se encontravam a “rebentar pelas costuras”.

A luta para entrar e conquistar um pedaço de espaço para acomodar a planta dos pés era renhida. E por isso houve quem não teve alternativa se não viajar pendurado na porta da carruagem. Dos passageiros com quem o domingo interagiu, grande parte confessou ter despegado dos postos de trabalho com duas horas de antecedência, contudo, a falta de transporte não lhes permitiu chegar a tempo de se fazer ao interior do comboio e poder se sentar.

Dália Daniel, trabalhadora na zona da Costa do Sol, conseguiu apanhar transporte até a zona do Ponto- -final, no bairro Central, e de lá teve que caminhar até a estação de comboio. Enquanto isso, há quem optou pelo moto-táxi para regressar aos aposentos. Embora o custo lhe tenha saído muito elevado.

Antonita Nandja pagou 100,00 Meticais para sair da terminal da Praça dos Combatentes até a baixa e dali encontrar outro que a levasse ao seu bairro. No entanto, à hora de ponta, grande parte dos utentes residentes em zonas mais longínquas da cidade, não teve alternativa senão subir em camionetas “my love” que nos últimos dias se tornaram numa solução quase que indispensável para muitos cidadãos. Leia mais…

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