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Endometriose: uma dor invisível na menstruação

Por Jornal domingo
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Texto de Regina Naete

O diagnóstico precoce da endometriose constitui, ainda, um grande desafio em Moçambique. Por essa e outras razões, o médico ginecologista Equibal Muanarira e o jornalista, escritor e pesquisador Nobre Rassul propõem, através da sua recente obra, estratégias de redução do número de consultas e espera pelo diagnóstico desta e outras doenças ginecológicas.

Intitulado “Endometriose e doenças ginecológicas em Moçambique”, o livro tem como objectivo ampliar o conhecimento sobre a enfermidade e democratizar não só o acesso ao atendimento a mulheres nas unidades sanitárias em todo país, como também a compreensão desta condição na sociedade.

A endometriose, uma doença complexa e silenciosa que ataca muitas mulheres em todo o mundo, desde a menarca – primeira menstruação – até à menopausa, é tida como crónica. Seus sintomas incluem dor intensa durante a menstruação, sangramento menstrual abundante, dor pélvica crónica, infertilidade, inchaço abdominal e náuseas.

Ocorre frequentemente na pélvis, mas em algumas mulheres pode surgir em outras partes do corpo, como no abdómen e no tórax. As causas ainda são desconhecidas, no entanto, algumas pesquisas recentes sugerem que está associada à desregulação do sistema imunológico.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, estima-se que afecta cerca de 10 por cento, ou seja, 190 milhões de mulheres em idade reprodutiva em quase todo mundo. Em Moçambique, ainda não foram apontados dados estatísticos sobre o número de mulheres acometidas pela doença.

Ao domingo, Nobre Rassul explicou que a iniciativa para escrever o livro foi derivada de algumas mulheres na província da Zambézia que enfrentavam problemas ginecológicos e não encontravam respostas para as dores.

“Quando tentava compreender as causas da infertilidade, problemas que as mulheres enfrentam em torno de doenças ginecológicas intensas e menstruação contínua, achei necessário convidar o doutor Equibal como ginecologista para que juntos pudéssemos tomar a experiência de escrever o primeiro livro literário-científico que pudesse ajudá-las”, conta.

Durante quatro anos foram feitas pesquisas em torno de questões sociológicas, culturais, antropológicas e medicinais como forma de compreender a origem da doença. “Aproximamo-nos às mulheres que enfrentam este problema. Acima de 150 mulheres foram inquiridas para contar o seu trajecto e dificuldades. E fizemos, a partir daí, a ponte clínica, cultural, sociológica e da medicina tradicional, assim como também a ponte a nível das igrejas para tentar perceber como é que todas essas esferas influenciam no dia-a-dia delas”, partilhou um dos autores.

Acrescentou também que no livro pode-se compreender um pouco mais acerca da sintomatologia da endometriose, como é tratada a nível hospitalar e na sociedade no geral. “Depreendemos que a sociedade tem muito desconhecimento em relação a isso que se tornou hoje um problema de saúde pública. E aí relevou-se o facto de termos avançado de forma mais profunda sobre o livro”, sustentou.

DAR VOZ ÀS MULHERES

Para o especialista Equibal Muanarira, o livro é uma forma de permitir que as mulheres vítimas desta doença sejam assistidas com mais atenção e cuidado, isto porque, defende ele, “… a dor pélvica crónica está a ser normalizada”.

Por isso referiu que outro objectivo do lançamento “é chamar a atenção aos órgãos decisores para perceber que esta patologia é uma realidade, precisa de muita atenção, de um programa de atendimento e material específico para que as mulheres parem de sofrer, porque não estão a receber o devido tratamento”, afirmou.

O médico apontou também que seu desejo é que elas sejam ouvidas e que os especialistas tenham mais paciência para fazer o acompanhamento e as consultas até ao diagnóstico. “O livro visa dar voz às mulheres que estão esquecidas. Nas consultas, recomendam pílulas e alegam que vai passar. Mas é muito além disso, pois as dores não param e esses comprimidos acabam piorando a situação”, completou.

O apelo também foi estendido aos homens, a quem exorta à compreensão e apoio durante o tratamento. De igual modo, apontou que a falta de materiais específicos é um dos grandes desafios que ainda se verifica no país, o que, de certa forma, condiciona o diagnóstico e tratamento adequado. “Actualmente faz-se 15 consultas médicas para obtenção do diagnóstico. Mas não era suposto tantas. Apenas três seriam suficientes. O que se acompanha hoje é que levamos mais de cinco anos de ida ao serviço sanitário para detectar endometriose e quando isso acontece, já está na fase avançada”.

Com 121 páginas e 12 capítulos, a obra foi lançada na quarta-feira, na cidade de Maputo, em evento que reuniu médicos especialistas de saúde, mulheres e estudantes.

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