TEXTO DE DOMINGOS NHAÚLE E MARIA DE LURDES COSSA
Negociador-chefe do Acordo Geral de Paz (AGP) pela Renamo e actual embaixador extraordinário e plenipotenciário de Moçambique junto da Santa Sé, no Vaticano, Raul Domingos diz que é preciso reconhecer os sinais de conflitos e criar espaços de diálogo antes das diferenças se transformarem em violência.
Em entrevista ao domingo, a propósito dos 34 anos do AGP, Raul Domingos revisita os bastidores do processo que conduziu Moçambique ao fim da guerra dos 16 anos, a 4 de Outubro de 1992, em Roma, Itália. No seu entender, a principal lição daquele processo permanece actual: “os conflitos não devem ser enfrentados apenas depois de eclodirem. É preciso reconhecer os sinais e criar espaços de diálogo antes que as diferenças se transformem em violência”.
Entretanto, admite que para ele próprio e outros intervenientes chegarem a este entendimento não foi uma acção simples. Aliás, explica que a paz moçambicana não começou em Roma, em Julho de 1990.
“Antes do aperto de mãos que colocou frente a frente as delegações do Governo e a nossa (Renamo), houve desconfiança, contactos indirectos, disputas sobre o local das negociações e sucessivas tentativas para encontrar um espaço onde as duas partes se sentissem verdadeiramente à vontade”, afirma.
Raul Domingos recorda este período como uma sucessão de pequenos avanços e recuos, até que se encontrou uma fórmula capaz de colocar os adversários à mesma mesa. Segundo explica, a primeira aproximação ocorreu através de líderes religiosos moçambicanos, que estabeleceram contactos com a Renamo em Nairobi, em 1989.
“A desconfiança era ainda grande. Havia receio de que uma deslocação pudesse ser uma armadilha para capturar a liderança da Renamo. Por isso, ele não foi. Delegou a mim e ao Vicente Ululu para participarmos nesta primeira fase”, lembra.
Conforme explica, os contactos evoluíram, posteriormente, para a intervenção dos governos do Quénia e do Zimbabwe. Mas mesmo nesta fase as desconfianças existiam, pelo que sequer havia consenso sobre onde as negociações deveriam acontecer.
O Governo defendia o Zimbabwe e, posteriormente, o Malawi. A Renamo rejeitava ambos os países, considerando que não ofereciam as condições de neutralidade necessárias. O episódio de uma deslocação ao Malawi, promovida pelo Presidente queniano, Daniel Arap Moi, tornou evidente a dimensão da desconfiança. Leia mais…


