Voltar a ver filas de viaturas junto dos postos de abastecimento de combustível torna-se numa incomum forma de vida para muitas gerações posteriores à primeira metade da década de 1980. Se olharmos pelo retrovisor da construção do nosso Estado, o que salta à vista será, incontornavelmente, a crise cujo epílogo foi registado em 1983. As lojas ficavam de prateleiras vazias, o carapau e repolho haviam se tornado produtos, não só de enorme procura, como de prestígio.
As pessoas tinham que ser criativas para superar a crise de então, em que açúcar chegava a ser assaltado em vagões em pleno movimento no recinto dos Caminhos de Ferro, responsáveis das lojas de comércio geral chegaram a ser detidos em flagrante ao tentar açambarcar géneros alimentícios, por sua vez, o trigo em grão, chegou a substituir o arroz que somente era vendido nas lojas de referência, entre as quais, se não eram as “Lojas do Povo”, as “Cooperativas de Consumo”, era a “Interfranca”.
Muitos, naquele tempo, que já consumiam bebidas alcoólicas, por exemplo, se recordarão da “ginástica” que exerciam para ingerir uma quantidade satisfatória de cerveja. Consumir dois copos só era possível nas casas de restauração, mediante a compra de um petisco básico de água e sal com peixe carapau.
Nas pastelarias, para mata-bichar era preciso chegar bem cedo, formar a “bicha” como se ousou chamar, fila a qual só se movimentava no método de substituição. Ou seja, quem acabasse de comer duas arrufadas e um púcaro de chá com leite fresco, era taxativamente substituído por quem estava em primeiro lugar na fila. A forma criativa como as pessoas demonstraram então acabaria por ser reveladora do sentido de resiliência e adaptação às circunstâncias, diga-se. Leia mais…




