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Um amor além da “cegueira”

Por Maria Cossa
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Abílio Guambe, 45 anos, é deficiente visual, mas não nasceu assim. Foi aos 40 anos de idade, em 2021, que uma “escuridão” lhe invadiu e virou a sua vida ao avesso. Um ano depois, quando rebuscava a rotina, o emocional e parte das habilidades, conheceu Ângela Macamo, também deficiente visual, desde os 17 anos, que entre aulas de braille, admiração e conversas longas se transformou em sua mulher e cúmplice. O casamento deles foi em Junho do ano passado. Juntos têm uma filha de dois anos, chama-se Ayane e vê!

A deficiência visual não chegou da noite para o dia na vida de Abílio. Foi sorrateira. Começou por ter dificuldades para ler à longa distância, de seguida as cores foram ficando difusas, pessoas passaram a ser vultos e depois tudo apagou-se. “Isto começou-me em 1998. Subitamente, passei a ter dificuldades para ler as matérias escritas no quadro”, relata, serenamente. Quando esses primeiros sinais chegaram, Abílio foi ao hospital, tal como em todas outras vezes subsequentes que sentiu qualquer incomodo na vista. Os médicos receitavam-no gotas e óculos para a correcção do problema, entretanto: “nenhum deles, havia me dito que um dia perderia a visão. Que devia ir aprendendo a lidar com isto e a procurar formas de conviver com essa realidade”, conta-nos Abílio Guambe, formado em Ensino de Inglês e que era professor desta língua numa escola secundária na Maxixe, província de Inhambane.

Apesar das adversidades e dos questionamentos infindáveis, Abílio não aceitou a vida “escapar-lhe” entre os dedos. Fez contactos e descobriu, através do seu tio, que a Escola Comunitária de Malhazine haveria de abrir uma turma de reabilitação para deficientes visuais. Não pensou duas vezes, carregou nos seus pertences e rumou à Maputo. E foi naquela escola onde conheceu e se encantou pela Ângela, que era, na verdade, sua professora de braille. Dedicado, aprendeu, em poucos meses, o sistema de escrita e leitura táctil para pessoas cegas. Quando já estava confiante, escreveu uma carta onde exprimia os seus sentimentos. “Foi numa das vezes que ela nos mandou fazer trabalho de casa que ganhei a coragem. Ao invés do trabalho, fiz uma declaração usando braille”, lembra-se aos risos.

O momento também povoa a mente de Ângela, que acrescenta risonha: “quando chegou a hora de fazer a correcção dos trabalhos em casa, percebi que aquele conteúdo era diferente. Eu tinha em mãos uma carta de amor. Ali, Abílio expressava admiração e paixão por mim. Fiquei encantada, por isso não lhe denunciei à direcção”.

Depois que o romance se firmou, o casal decidiu alicerçar o seu amor na amizade, afecto, fé e cumplicidade. E hoje? Os dois já não se imaginam distantes um do outro. Juntos sentem que a vida tem sido mais leve. Aliás, Abílio, inclusive, confessa que, após perder a visão, já não tinha coragem de sair à rua sozinho. “Foi ela que me devolveu essa confiança. Além de professora de braille, Ângela mostrou-me que podia andar sozinho, apanhar chapa e ser independente. Ou seja, foi ela quem me ensinou a viver nesta condição”, conta ele que, em 2023, chegou a retomar à docência, desta vez em Maputo, lecionando em turmas de alunos sem necessidades especiais.

Também ela, a Ângela, não lhe poupa os elogios e declarações: “Abílio é uma pessoa especial e aprendi muito dele. Tem uma personalidade que me impressiona. É humilde, calmo, uma pessoa boa. Ao lado dele sou feliz! E amo-lhe tanto por ser o que ele é”.

DIA-A-DIA COMUM

Cuidar da casa e da uma família precisa de uma atenção especial. Geralmente, para dar conta desta tarefa, as pessoas socorrem-se de todos os sentidos. Entretanto, Abílio e Ângela mostram que é possível viver de forma independente, mesmo sem a visão, por exemplo. O dia-a-dia deles é normal e a rotina é semelhante a muitos outros casais comuns. Lavam, cozinham, engomam, fazem limpeza da casa. E há quem pode questionar, como? Eles respondem: “nós já dominamos esta casa. Quando chegaram, por exemplo, eu saí sozinha para vir vos receber”, explica Ângela, que sublinha que conhecem o quintal todo e sabem onde se encontram ou não os obstáculos. Já no interior da casa, reconhecem muito melhor os cantos. Aliás, quando querem cozinhar, não chamam aos filhos ou a empregada para pedir faca ou seja lá o que for.

A rotina permitiu- -lhes traçar, na memória, o lugar onde ficam os electrodomésticos, móveis, entre outras coisas. Outro facto que faculta a vida do casal é a organização e disposição dos electrodomésticos e utensílios. Como forma de garantir quaisquer imprevistos, tudo fica no mesmo lugar. “Quando fazemos limpeza depois mantemos os móveis no mesmo lugar. Se se for fazer alguma mudança é preciso que nos informem para evitar que tropecemos, mas, geralmente, mantém-se tudo no mesmo espaço”.

Além das actividades domésticas, o casal também faz ginástica e corridas no bairro de Magoanine ou no Zimpeto. “Entretanto, devido à estrada, temos um guia a quem pagamos para nos acompanhar”.

PATERNIDADE APÓS DEFICIÊNCIA

Antes de ser deficiente visual, Abílio tivera uma outra família na qual brotaram três filhos. Ângela, igualmente, esteve em outra relação e gerou dois filhos. Entretanto, juntos, como forma de selar o seu amor, tiveram uma menina que, diferente dos pais, vê. Tem dois anos e chama-se Ayane. Apesar de pequenina, tem ajudado-os a calçarem chinelos e sapatos.

Ora, a experiência de ter filho nesta condição não era necessariamente nova para Ângela, que ficou deficiente visual aos 17 anos, e jamais suprimiu o seu desejo de ser mãe. Entretanto, Ayane é a primeira filha que nasce depois que Abílio ficou deficiente visual.

Apesar da sua condição, não se coibiu de exercer o seu papel de pai. Foi o responsável pelo primeiro banho da criança quando, recém-nascida, regressou à casa. “Foi muito emocionante”, lembra-se, ele que agora trabalha como tradutor da língua inglesa e portuguesa. Além de banhos, aprendeu a trocar fraldas, dar leite e papinha mesmo sem ver. É, na verdade, uma experiência que teve com os seus anteriores filhos, porém, agora com maior cuidado.

Abílio conta que a coragem de seguir com os seus deveres de pai vieram, uma vez mais, do apoio incondicional da sua mulher. Ângela disse-lhe para encarar a vida com toda a normalidade. “Apesar de já ser mais experiente que eu, ela permitiu-me viver aquele momento. Podia ter me afastado destas tarefas sob alegações de que eu podia deixar cair nossa filha, mas não. Ângela permitiu-me ser pai mesmo na cegueira”.

OS EMPECILHOS

Apesar da simplicidade e leveza com que procuram levar a vida, Abílio e Ângela admitem que têm alguns empecilhos. A falta de carro, por exemplo, é uma das enormes dificuldades com que lidam diariamente. Ambos trabalhadores, têm de sair sempre para os seus postos.

À saída de casa, normalmente com os filhos que os ajudam a atravessar a estrada, é tudo tranquilo, mas a cena muda de figura quando chega a vez de apanharem transporte. É que há ainda cobradores, motoristas e passageiros insensíveis e impacientes para com eles. Ainda assim, mantêm a positividade: “a vida é feita de dificuldades. E sabemos que todos têm, podem não ser estas que nós temos. Por conta disto, agradecemos a Deus, pois ele tem colocado bênçãos para nós”, diz Ângela.

SOBRE ÂNGELA

Funcionária do Ministério da Educação e Cultura, Ângela começou a ter problemas de visão aos 10 anos e, gradualmente, foi perdendo a visão. “Aos 17 já não via nada”. Mulher forte, não se deixou vergar pelas adversidades que a vida lhe impôs. Concluiu o ensino secundário, seguiu para a licenciatura e alcançou o mestrado em Psicologia Educacional. “E como forma de ajudar aos que têm essa deficiência, gosto de ensinar braille”, segreda-nos.

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