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Peixe como sinónimo de fartura

Por admin

Os frutos do mar são, inegavelmente, das coisas mais apetecíveis que o homem tem para saborear na vida. Ver tantas qualidades de peixe, fresquinhos a sair do mar, é algo que não acontece todos os dias e muito menos à qualquer hora.

Na praia de Zalala, distrito de Nicoadala, na Zambézia, pode-se ter o contacto real com as potencialidades que nos oferece o extenso Banco de Sofala. Ali, as comunidades buscam nos frutos do mar a sua potencial forma de sobrevivência. Diferentemente das outras praias existentes nos nossos mais de dois mil quilómetros de costa, Zalala chega a ser o retrato de que o peixe pode ser, por vezes, sinónimo de fartura.

Sobre a praia dizer que fica localizada a pouco mais de 40 quilómetros da cidade de Quelimane. Esta é a praia preferida dos quelimanenses! A estrada que vai da cidade à praia é toda asfaltada, mas muito estreita. São quatro dezenas de quilómetros de estrada ladeados por um extenso palmar! A praia é de facto um sonho! São quilómetros e quilómetros de costa com um areal claro e limpo. É o Índico, em mar aberto, com a água límpida e quente. É uma maravilhosa praia de extenso areal branco, orlado de densas e frondosas casuarinas. 

Zalala: o sustento que vem do mar

Milhares de pessoas, oriundas de diversos distritos costeiros da província da Zambézia, buscam o seu sustento junto às margens da praia de Zalala. São muitas as espécies de peixe que escalam aquela zona turística da Zambézia. É que para além do turismo, Zalala tem a particularidade de reunir potencial para a alimentação de muitas pessoas.

A praia de Zalala, situada a 34 quilómetros da cidade de Quelimane, é sobejamente conhecida pelo seu rico potencial turístico. Para além desta riqueza, aquela zona costeira da província da Zambézia esconde uma outra realidade, queestá intimamente ligada à subsistência humana.

Milhares de pessoas permanecem na praia horas a fio à busca de peixe e outros frutos do mar para os colocar na rota da comercialização, de modo a obter rendimentos para sustentar as suas famílias.

Vindas de vários pontos dos distritos costeiros da Zambézia, as populações descobriram uma maneira diferente de ganhar a vida, chegando mesmo a fazê-lo em moldes que, inclusive, chegam a roçar também a divertimento.

Os pescadores disseram-nos que chegam a ensacar por dia 70 a 80 sacos de pescado para o consumo humano, destinados a diversos mercados do nosso país, predominantemente espécies como o “chereua” e a “corvina”.

O SUSTENTO VEM DO MAR

Chegámos à “Zalala” ao fim da manhã de uma quarta-feira, em pleno período laboral do funcionalismo público no território nacional. Quando ali aportámos, os carregadores acabavam de encher de pescado dois camiões de 7,5 toneladas, os quais se encontravam estacionados por baixo de casuarinas, que emitiam o seu assobio típico.

Para marcar a pausa, antes de se levar o carregamento para o destino, os carregadores acenderam pequenas fogueiras e iam assando alguns peixes, não só para fazer a primeira refeição do dia, como também para saborear um produto fresco que o mar nos oferece.

Virados para o mar, vêm-nos as imagens do “tsunami” que devastou a Indonésia, fenómeno que teve repercussão no Banco de Sofala, para além do céu estar completamente aberto, a uma temperatura que rondava os 36 graus centígrados.

Ao som das águas do mar, onde praticamente “morrem” as ondas, estão milhares de pessoas, entre crianças, jovens e velhos, que esperam a chegada de mais um barco para descarregar pescado.

Aboobacar Mamur, jovem de apenas 17 anos de idade, diz-nos que se encontrava no local a ver se conseguia dinheiro para sustentar a sua vida e pagar os seus estudos.

Tal como nos disse, de manhã vai à escola, mas naquele dia decidiu faltar, porque estava a precisar de dinheiro para organizar a sua vida e da sua família, visto enfrentarem imensas carências. Ele nos disse que quando sente fome, chega a roubar peixe de alguém, visto que, o que ele quer é “lutar pela sobrevivência”.

Futura Rafael, mãe de três filhos menores, residente na cidade de Quelimane, é outro rosto dos que se podiam encontrar na praia de Zalala à procura de uma fonte de subsistência. Ela disse-nos que era negociante de pescado em Quelimane e chega a comprar de “stock” 10 sacos, ao preço de 1.250 meticais cada, obtendo de lucro, em cada unidade, qualquer coisa como 150,00 meticais. Pelo transporte de Zalala à capital da Zambézia, paga o valor de 100,00 meticais.

“Este, como qualquer outro negócio, tem os seus riscos. Às vezes registamos prejuízos. O peixe deteriora-se. Mas, pelo menos consigo viver, com a ajuda de Deus. Não faço outro trabalho”, disse Futura Rafael.

Viegas Assane, natural distrito zambeziano de Pebane, 42 anos de idade, pai de cinco filhos, revelou-nos que se dedica à actividade comercial há pelo menos 25 anos. Acrescentou que se trata de um negócio que não lhe traz um rendimento satisfatório, mas, como se encontra envolvido nele há bastante tempo, continua a desenvolvê-lo por “uma questão de hábito”.

Explicou que chega a comprar para o seu “stock” entre 10 e 15 sacos de peixe, a preços que variam entre 1.250 e 1.450 meticais. Em cada saco obtém-se lucros que variam de 50 a 100 meticais.

Por sua vez, Viriato Maurício, de 33 anos de idade, natural de Pebane, disse-nos que se dedica ao negócio da venda de peixe há sensivelmente 14 anos, como uma forma de sustentar a sua vida e a dos seus três filhos.

Maurício referiu que a quantidade de peixe que compra está muito dependente das suas capacidades financeiras, visto que ele pretende apenas assegurar a sobrevivência da sua família. “Que fazer, quando não há outra forma? Melhorar a minha vida, acho ser coisa difícil. Eu comecei a vender peixe há bastantes anos, mas não consigo melhorar o meu nível de vida”, afirmou.

PEIXE DE ENCHER O OLHO

As pessoas, enquanto aguardam pela chegada de mais um barco, praticam diversas formas de diversão e aí, o pequeno negócio de comida e de bebidas conquista a sua oportunidade no local. Quando o barco aporta, há uma correria desenfreada, com os mais novos a destacarem-se, pois são mais velozes, deixando os mais velhos para atrás. Alcançam a embarcação num ápice, antes mesmo desta se imobilizar na praia.

Abdul António, 43 anos de idade, proprietário duma embarcação que acabava de atracar, disse que vinha do alto-mar, onde comprou dos pescadores 63 lâminas de uma variedade de pescado.

Ele próprio, pescador há cinco anos, Abdul António disse ser natural de Pebane e pai de quatro filhos. Acrescentou que, no alto-mar, compra cada lâmina a preços que variam de 350 a 600 meticais junto de embarcações industriais que fazem ali descarregamentos. Junto à costa, ele vende cada lâmina a preços que variam de 1.100 a 1.400 meticais.

Habitualmente, conforme revelou o nosso entrevistado, tem carregado na sua embarcação espécies de pescado como o “Tira Casaco”, “Melau”, “Gabri”, “Peixe Pedra” e lulas.

Honório Manjor, extensionista do Instituto de Desenvolvimento da Pesca de Pequena Escala (IDPPE), disse que as quantidades de pescado que chegam à margem de “Zalala” têm muito a ver com o tipo de arte de pesca que os pescadores usam.

Tal como nos disse, em Zalala são praticados vários tipos de arte de pesca, como são os casos do “palangri”, por via de anzol ou de linha, a pesca de arrasto, bem como pesca com rede de malhar de fundo para peixes grandes ou com a rede de malhar de superfície para a captura da “magumba”, entre outros.

Manjor disse que, a praia de Zalala configura duas realidades, pois, funciona, simultaneamente, por um lado, como um centro de desembarque de pescado e, por outro, como pólo de comercialização de produtos do mar.

Aquele extensionista acrescentou que, através da pesca de arrasto, quando se regista bom tempo, os pescadores chegam a capturar acima de sete toneladas de espécies marinhas.

Outra das artes de pesca que mais se desenvolve nos mares do Banco de Sofala é a recolha de fauna acompanhante, virada para a captura de camarão, havendo cerca de 40 embarcações motorizadas que se dedicam àquele tipo de prática. A captura de camarão representa uma média diária de 34 mil quilogramas.

O representante do IDPPE disse ainda que os operadores das embarcações são sujeitos a uma licença de actividade, bem como ao pagamento de taxas de exploração, que variam em função do tipo de arte de pesca que pretendem desenvolver.

A fiscalização, por sua vez, é assegurada pelo Conselho Comunitário de Pesca e pelos Serviços Distritais de Actividades Económicas de Nicoadala, órgão encarregue da cobrança de licenças, bem como pela Administração Marítima local.

Os serviços de extensão de pesca de pequena escala, segundo a fonte, têm vindo a fazer a divulgação das artes de pesca melhoradas, de boas práticas, dos cuidados a observar no manuseamento, processamento e conservação do pescado.

O centro de pesca de “Zalala” abastece, neste momento, as regiões de Gurué, Alto-Molocué, Ile, Mocuba e a cidade de Quelimane, capital da Zambézia, na região Centro do país.

Benjamim Wilson

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