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Morte de cavalos desagua em tribunal

Por admin

A Escola de Equitação da Tsamadhi, estabelecida na região de Chiango, cidade de Maputo, decidiu processar a Companhia Industrial da Matola (CIM) por suposto fornecimento de um tipo de ração que levou à morte de sete cavalos e gerou prejuízos no negócio daquela escola.

O desatino entre as partes reside na indemnização que a CIM disponibilizou àquela escola que, segundo os seus gestores, não é suficiente para devolvê-la ao estágio em que se encontrava antes do incidente, em termos de retorno financeiro e muito menos de satisfação da crescente demanda.

A estória começa em Dezembro de 2014 e se estende até Fevereiro de 2015, altura em que a Tsamadhi encomendou uma quantidade não especificada de ração à CIM que tratou de produzir e fornecer conforme acordado.

Porém, pouco depois, os gestores da escola observaram que parte dos 36 cavalos começaram a apresentar sinais de agonia, fadiga, arritmia cardíaca, cólicas, perda de peso, ataxia e depressão, entre outros que comprometiam o prosseguimento das aulas de equitação.

Sem elementos substantivos para compreender o que se estava a passar, a equipa que cuida dos cavalos naquele recinto assistiu impotente à morte de dois cavalos. Porque o quadro tendia a agravar, procedeu-se a uma verificação preliminar que concluiu que se estava perante o envenenamento dos animais.

Dados em nosso poder indicam que, na mesma época, outra empresa que também lida com cavalos, localizada em Marracuene, também foi afectada e, dos contactos estabelecidos entre estas duas, não foi possível apurar de imediato as causas, isto por meros constrangimentos de comunicação.

Poucos dias depois, as duas empresas orientaram as suas investigações para a ração fornecida pela Companhia Industrial da Matola (CIM). Foi então, que começou o controlo para apurar se a causa da intoxicação tinha origem na ração ou se se tratava de uma doença contagiosa.

O início do controlo alimentar dos cavalos coincidiu com uma altura em que decorria o fornecimento de mais um stock de ração e Lisa Alberts, que é uma das gestoras do projecto Tsamadhi, diz que se recorda de ter questionado os técnicos da CIM sobre a qualidade do produto. “Eles disseram que não havia problemas. Garantiram que estava tudo bem”.

Perante estas garantias, a Tsamadhi continuou a alimentar os cavalos com ração, até que no dia 7 de Fevereiro de 2015 se constatou que aquele produto continha grãos maiores do que o normal. “Naquele mesmo dia, chamamos a veterinária da CIM que disse suspeitar que se tratava de ração de cavalo misturada com a de galinha”, disse.

Perante este quadro, a escola decidiu suspender as aulas de equitação por falta de condições de trabalho. Segundo Lisa Alberts, a CIM comprometeu-se a enviar um especialista para avaliar a situação prevalecente no terreno.

Da apreciação feita pelo aludido perito, que efectou várias visitas e testes, chegou-se à conclusão de que a contaminação teve a sua origem na fábrica e que o problema era mesmo de ração. Para além deste especialista, a seguradora da CIM, a Global Alliance, também enviou o seu especialista.

Conta que na primeira avaliação foi confirmado que, dos 36 cavalos, 12 estavam contaminados e visivelmente debilitados. “Começamos a fazer exercícios e o especialista da CIM voltou no fim de Maio para fazer mais uma avaliação e, nesta altura, constatou que para além dos primeiros 12 doentes havia outros dois com a saúde a deteriorar, o que totalizava 14 cavalos visivelmente afectados”.

Destes 14, Lisa Alberts contou à nossa Reportagem que, mediante aconselhamento veterinário e de especialistas, foram sacrificados cinco cavalos e outros dois morreram por si, totalizando sete cavalos. “Temos mais dois cavalos que poderão ser sacrificados a qualquer momento, porque estão em péssimo estado de saúde”.

Entretanto, e apesar do desespero dos proprietários daquela escola, a peritagem efectuada concluiu que dos 22 cavalos que aparentemente poderiam ser aproveitados, há pelo menos 12 cavalos em razoável estado de saúde mas, que mesmo assim, apresentam outros sintomas que resultam indirectamente da contaminação, nomeadamente, problemas respiratórios, fraqueza, entre outros. Os restantes 10 cavalos ostentam sinais de fadiga que os impede de desenvolver a sua actividade normal que é correr e pular.

Dos exames efectuados em laboratório, Lisa Alberts conta que se chegou à conclusão de que a ração fornecida pela CIM continha grãos que são usados para fortalecer o crescimento rápido de pintos, incluindo salinomicina e menensina (antibióticos de pintos) que são considerados perigosos para cavalos.

Dados em nosso poder indicam que o recurso à ração fornecida pela CIM resultou de uma decisão recente tomada pelas Alfândegas de Moçambique que aumentou o valor das taxas aduaneiras aplicáveis a este produto, por entender que o mesmo se destina à alimentação de cavalos e, por isso, ser um produto não essencial (de luxo).

Assim, as taxas aplicadas passaram de 20 para cerca de 50 por cento pelo quea Tsamadhi decidiu reduzir a quantidade importada e passar a adquirir uma quantidade maior na CIM para depois proceder a misturas no local.

INDEMNIZAÇÃO: A DOR DE CABEÇA

Depois de se provar que o problema dos animais estava ligado à contaminação da ração dentro da CIM, iniciou-se uma longa jornada de negociações para se chegar a um entendimento entre as empresas envolvidas.

Apuramos que a proposta da Seguradora Global Alliance (seguradora da CIM), recebida em Novembro de 2015, indicava um valor de indemnização que não terá satisfeito às expectativas da Tsamadhi, pois, só serviu para adquirir oito cavalos não adestrados.

O entendimento dos gestores daquela escola de equitação é de que a indeminização devia ser suficiente para cobrir todas as despesas inerentes à aquisição de cavalos treinados, cobrir a sua importação, pagar impostos, seguro, garantia, licença, transporte, avaliação veterinária e também compensar pelo tempo de quarentena.

É que o adestramento de cavalos, por si só, pode levar até três anos. “O treinamento pode consumir entre dois a três anos. É verdade que para quem já sabe montar, em seis meses de adestramento já pode cavalgar, mas a nossa escola lida particularmente com crianças, jovens e adultos que nunca tiveram essa experiência antes, pelo que o adestramento é muito importante”.

Com vista a evitar um processo litigioso no judiciário, os gestores daquela escola revelaram que procuraram estabelecer negociações com a CIM com a finalidade de ultrapassar o impasse sobre o valor da indemnização, mas todos esforços redundaram em fracasso.

Por essa razão, a terá Samadhi decidido levar o caso para o tribunal, porque a indemnização recebida não corresponde às perdas, incluindo pelo tempo em que se viu forçada a paralisar as actividades. “O nosso recurso ao tribunal tem em vista recuperar a empresa, comprar cavalos treinados e voltar a oferecer serviços que tínhamos antes”.

A nossa interlocutora disse ainda que a escola poderá ser encerrada a qualquer momento por falta de cavalos. Aliás, recentemente teve que reduzir o número de trabalhadores por falta de capacidade financeira para pagar os seus honorários e cobrir despesas fixas mensais, tais como água, luz, comunicações, entre outras.

Antes da intoxicação dos cavalos, a Tsamadhi tinha cerca de 100 alunos de equitação e leccionava entre 700 a 800 aulas por mês. Porém, e derivado desta situação, o número de aulas foi reduzido para apenas 100 por mês.

De igual modo, as competições também reduziram de forma drástica. Se antes da intoxicação era comum realizar até nove corridas por ano, hoje a situação se tornou tão difícil que só estão previstas duas por falta de cavalos.

Para Lisa Alberts, os prejuízos não se resumem à componente financeira. Eles se estendem até para aspectos emocionais e educativos dos alunos, uma vez que esta prática auxilia no equilíbrio, na força e na coordenação motora das crianças, sobretudo as que tem necessidades especiais.

Um dos benefícios da equitação, segundo ela, é correcção da postura, além de oferecer noções de cuidados com os animais, o que faz com os petizes aprendam o sentido do companheirismo, do trabalho em equipa, entre outros.

Esta prática auxilia na concentração, tornando mais fácil a aprendizagem, o desenvolvimento da linguagem e comunicação. Melhora o desempenho do pequeno em actividades do dia-a-dia. Além disso, o facto de cavalgar em um animal manso, mas de porte avantajado, faz com que a criança experimente sentidos como independência e liberdade”.

Susana de Mayer é uma das alunas da Escola de Equitação Samadhi que pratica esta actividade há cerca de oito anos. Lembra que quando foi levantado o problema da intoxicação estavam a preparar uma competição e todos os alunos receberam uma mensagem que dizia que os cavalos foram envenenados e, por via disso, teriam que cancelar tudo.

Susana conta que a escola fechou oficialmente por sete meses. Alguns alunos vieram ajudar a treinar os cavalos que tinham passado no teste depois da contaminação para recuperar a sua condição física. “Houve um tempo que vinha só para escovar alguns cavalos só para matar saudades. Alguns dos que foram contaminados já não podem ser montados e é muito triste”, disse.

CIM e advogados não falam

A nossa equipe de Reportagem entrou em contacto com a veterinária da Companhia Industrial da Matola (CIM) que lidou directamente com o caso, conhecida apenas por Samira, que nos remeteu à empresa de advogados, denominada CGA para a obtenção dos esclarecimentos afins. Porém, dos contactos feitos, quer por telefone, quer por correio eléctrónico, a CGA simplesmente escusou-se de prestar qualquer depoimento até à data de hoje.

 

Angelina Mahumane

amahumane@snoticias.co.mz

 

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