Transmitir a educação nutricional às comunidades, tendo em conta a sua produção local, continua a ser uma das principais recomendações deixadas aos nutricionistas afectos ao Sistema Nacional de Saúde no primeiro Seminário Nacional de Alimentação, Nutrição e Dietética realizado recentemente em Maputo e que reuniu nutricionistas de todas províncias e distritos.
De acordo com a Chefe do Departamento de Hotelaria Hospitalar, Avone Pedro, o problema da desnutrição não está sempre ligado à falta de alimentos, mas sim à ignorância em relação ao valor nutricional dos alimentos produzidos e à combinação dos mesmos nas refeições. Temos províncias com grande capacidade de produção local mas existe a problemática de hábitos alimentares, os tabus e o facto de a figura do nutricionista ainda não ser conhecida. Então estes factores ditam para esta realidade, explicou Avone Pedro.
Dados tornados públicos pelo Ministério da Saúde indicam que ao nível nacional, as províncias da zona norte continuam a registar maior prevalência de desnutrição. Paradoxalmente, a mesma região produz uma variedade de culturas. Por exemplo, na campanha agrária de 2010-2011 o norte do país registou maior quantidade de produção de cereais ao nível nacional com mais de 350.000 toneladas.
No ano de 2011 Nampula foi a província com maior prevalência de desnutrição crónica com 55 por cento, seguida de Cabo Delgado com 53, Niassa com 47 e Zambézia com 45 por cento.
No encontro, de três dias, os nutricionistas de todas províncias e alguns distritos apresentaram dificuldades que têm enfrentado nas unidades sanitárias a que estão afectos. No entanto, o denominador comum encontrado foi a pouca importância que ainda se dá ao papel do nutricionista no processo de recuperação do doente.
Desafios do nutricionista no país
A responsável pelo Departamento de Hotelaria Hospitalar, Avone Pedro, revelou a razão daquele encontro nacional. “Somos profissionais de uma área nova no país e ainda somos muito poucos. Estamos aqui para alinhar os pilares da nossa forma de trabalhar e atender os doentes nos hospitais, pois há requisitos básicos que devem ser respeitados, uma vez que o nutricionista constitui um elemento fundamental no processo de tratamento do doente”, salientou a nossa fonte.
Mais adiante, Avone Pedro revelou a necessidade urgente de se debater os protocolos de atendimento e as dietas terapêuticas para melhor servir e ajudar o paciente, pois, no seu entender, parte considerável das doenças existentes tem origem na alimentação.
domingoconversou com alguns nutricionistas que partilharam as suas experiências nas províncias em que se encontram a trabalhar.
Consome-se mais peixe
em detrimento de outros alimentos
-Nurbai Momade, nutricionista em Nampula
Nurbai Cidie Momade é nutricionista e está afecta ao Hospital Rural de Angoche, na província de Nampula. É responsável pelo Programa de Nutrição ao nível daquele distrito que conta com mais dezanove unidades sanitárias, sendo que apenas duas possuem serviço de internamento, nomeadamente o Hospital Rural de Angoche e o Centro de Saúde de Namitória.
Nestas duas unidades sanitárias com internamento servimos três refeições por dia. Mas também trabalhamos em coordenação com os médicos afectos nas unidades sanitárias sem internamento e mensalmente se faz a supervisão nutricional dos doentes, explicou.
Para esta nutricionista, o hábito alimentar contribui para o agravamento da desnutrição nas comunidades. Em Angoche a população consome mais peixe em detrimento de frutas e legumes. Agora temos feito um acompanhamento individual dos casos, pois as necessidades dos pacientes são diferentes, disse.
Maior índice de desnutrição está nas crianças
-Alberto Carlos Zide, nutricionista em Tete
“Em Tete a faixa etária com maior índice de desnutrição é de crianças entre os zero e dois anos de idade.” Revelou Alberto Zide, nutricionista afecto ao Hospital Provincial de Tete.
Segundo a nossa fonte, as crianças desnutridas são submetidas a um tratamento com base em leites terapêuticos com elevado valor nutricional. Dependendo da avaliação da situação de desnutrição, elas fazem a primeira fase de tratamento com o leite F75, um alimento composto de proteínas, vitaminas, sais minerais e compostos energéticos, explicou, tendo acrescentado que, de acordo com a sua evolução, à criança é administrada a segunda fase com o leite terapêutico F100 um composto nutricional rico em compostos energéticos.
Para além desta suplementação, o hospital tem realizado palestras semanais nas maternidades e nas comunidades, onde são abordadas as boas práticas da educação nutricional, com destaque para o aleitamento materno exclusivo e alimentação complementar. Nestes encontros também são feitas demonstrações culinárias de diferentes receitas infantis.
Luísa Jorge
Fotos de Carlos Uqueio