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Como está a nossa esperança de vida?

Por Luísa Jorge
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Jaime Durão é advogado de profissão. Octogenário, a sua aparência física pouco diz da sua idade. Continua a exercer a sua profissão, desafiando a lógica da natureza. Mas, o que pouco se sabe é que a sua vitalidade se baseia numa rotina rigorosa, que inclui caminhar na maior parte das suas deslocações diárias. É isso e muito mais.

domingo interpelou-o num momento em que se dirigia ao Tribunal Surpremo para mais um encontro de trabalho. Ao longo da conversa, transbordava boa disposição e espírito jovial. Diz ser importante para manter a saúde mental, aguentar a pressão e o stress que caracterizam o quotidiano actual.

O testemunho de Durão encaixa-se no universo descrito por especialistas da área de Saúde Pública, que apontam a existência de vários factores que contribuíram para que a esperança de vida dos moçambicanos passasse dos 39 para 55 anos.  Tudo está relacionado com a melhoria das condições de vida no geral, nomeadamente a habitação, renda familiar, o abastecimento de água potável e saneamento do meio ambiente, apenas a título exemplificativo.

Adiciona-se a estes os avanços registados no sector de Saúde, particularmente nas políticas de saúde pública. Neste âmbito, os programas de Saúde Pública, como é o caso do Programa Alargado de Vacinação, introduzido após a independência (em 1979), que permitiu imunização gratuita de crianças no país, vieram reduzir drasticamente a mortalidade infantil e de menores de cinco anos. O aumento da cobertura desta iniciativa permitiu reduzir, ao longo dos anos, quase todas as doenças preveníveis. Como resultado destas medidas, algumas foram sendo eliminadas. É o caso do tétano neonatal. 

No leque dos factores contribuintes para a vitalidade estão o abastecimento de água e saneamento básico. Estes elementos são apontados como estando directamente ligados à redução de mortes por diarreias.

Entretanto, a educação, no geral, e literacia na saúde, particularmente a das mulheres gestantes e mães, sobre a importância do processamento e alimentação correcta dos filhos também ajudou a reduzir mortes por malnutrição, além de prevenir outras enfermidades.

DOENÇAS QUE COMPROMETEM A LONGEVIDADE

Por muito tempo, as doenças infecciosas dominaram as estatísticas de mortes no país. Em adultos com idade entre 15 e 49 anos, a infecção pelo vírus da imunodeficiência adquirida (HIV) constitui a principal causa. A tuberculose e outras infecções respiratórias ocupavam a segunda posição nas causas que mais matavam no país.

No entanto, nos últimos anos, o perfil epidemiológico no país mudou. Em 2023, o Instituto Nacional de Saúde procedeu ao lançamento de relatórios sobre as causas de morte, com dados obtidos no Sistema Comunitário de Observação em Saúde e de Eventos Vitais (SIS-COVE), que confirmavam a mudança  do cenário descrito acima. Assim, as doenças crónicas não transmissíveis e traumas passaram a ter peso no número de mortes por doenças infecciosas.

MULHERES VIVEM MAIS

De destacar que a esperança de vida é definida como o número aproximado de anos que um grupo de indivíduos que nasceu no mesmo ano poderá viver, se mantidas as mesmas condições desde o seu nascimento. 

No nosso país, dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), na publicação Homens e Mulheres 2022-2023, lançado em Agosto de 2024, apontam que entre o Censo de 1980 e as projecções de população de 2023, o número esperado de anos para um recém-nascido viver aumentou em 16 anos, ao passar de 39 para 55 anos, respectivamente.

No entanto,  o número de anos que se espera viver ao nascer não é igual para ambos os sexos. As mulheres tendem a viver mais, podendo alcançar os 58 anos, enquanto que, nos homens, a esperança é estimada em 53 anos. Além da composição biológica feminina, isto é justificado pelo facto de as mulheres frequentarem mais as unidades sanitárias do que os homens, associado à crescente tendência de acesso destas à educação formal.

Olhando para a realidade nacional em termos geográficos, Inhambane, Tete, Manica, Sofala e Maputo são as províncias onde a média de vida das mulheres está acima de 60 anos.

Enquanto isso, a longevidade masculina é mais elevada na cidade e província de Maputo, onde os homens atingem uma média de 66 anos de idade. A seguir, destaca-se a província de Inhambane, com uma média de 64 anos para  os homens.

Pesquisas feitas pelo Instituto Nacional de Estatística em 2022 e 2023 apontam Gaza como a província onde a esperança de vida ao nascer ainda é relativamente mais baixa nos homens, com uma média de 49 anos.

OCTOGENÁRIOS RELATAM A SUA ROTINA

Jaime Durão gaba-se pelas ínfimas vezes que teve de recorrer a uma unidade sanitária para tratamento de uma doença grave.

Dos rituais de vida, uma boa noite de sono e alimentação cuidada são duas coisas de que não abre mão. Não fuma e bebe pouco. “Bebo em ambientes ou eventos sociais, mas não exagero. Duas taças, no máximo”, garante.

Quem também está a colher “os louros” da longevidade é João Sitoi. A sua disciplina no auto-cuidado fê-lo conseguir ultrapassar a média de esperança de vida dos moçambicanos, que é de 55 anos. Nasceu em 1943 e completou este ano 83 primaveras, celebradas com uma vivacidade ímpar. É sapateiro de profissão e continua no activo. Enquanto conversa com domingo, costura sandália de uma cliente. Queixa-se da reduzida visão dos seus olhos, sobretudo o esquerdo, que num passado recente foi atingido, acidentalmente, por uma garrafa. “Mas, ainda consigo fazer meu trabalho sem precisar de óculos de vista”,gaba-se.

Residente no município de Boane, na província de Maputo, sua rotina é feita entre a baixa da cidade de Maputo e a província de Maputo. Todos os dias, o seu relógio biológico desperta-o às 4.00 horas da manhã. De Boane à baixa da cidade vem de comboio. “Chego às 6.00 horas e, no final do dia, retorno à minha residência”, partilha. João  também não bebe e não fuma. Prefere outras formas de descomprimir. Mas não revela todas, apenas afirma que vai à cama às 21.00 horas e quando pode, mais cedo ainda. Cresceu num ambiente familiar cristão é o mais novo de dois irmãos.

Já Helena Manhiça, outra octogenária que privou com domingo, completa este ano 82 primaveras. É comerciante num dos grandes mercados da cidade de Maputo. Para ela, a longevidade do ser humano é providência divina. Defende categoricamente esta tese. “Você pode até não ter muitos vícios, mas acabar por perder a vida muito cedo e quem tem vícios viver mais. Viver muitos anos é fruto da vontade de Deus. Ele está no centro das nossas vidas”, defende.  

Natural de Maputo, nasceu no bairro 25 de Junho. É mãe de 10 filhos, dos quais dois já não se encontram em vida.  No mercado, Helena trabalha com uma das suas filhas, a Natália, que lhe segue as peugadas.

O desafio é que se morra

pouco na idade adulta

Francisco Mbofana, presidente do Conselho Nacional de Combate ao HIV/Sida

De acordo com Francisco Mbofana, presidente do Conselho Nacional de Combate ao HIV/Sida (CNCS) e antigo director nacional de Saúde Pública, Francisco Mbofana, o sector da Saúde Pública tem de lidar com os novos desafios nesta área. “Hoje  temos um cenário de persistência de doenças infecciosas, mas também doenças crónicas não transmissíveis, assim como os traumas”, apontou.

O presidente do CNCS recorda que a infecção pelo vírus da imunodeficiência adquirida continua a contribuir sobremaneira para a ocorrência de mortes. “Cerca de 40 mil pessoas morrem  por HIV/Sida anualmente. Em 2024, tivemos 44 mil óbitos. As doenças infecciosas continuam a matar mais do que as não transmissíveis. Mas é altura de se repensar nos desafios desta nova realidade”, apontou.

Explicou, entretanto, que o aumento de mortes por doenças crónicas não transmissíveis está relacionado com a longevidade. “As pessoas vivem mais tempo e por isso começam a surgir doenças relacionadas com a idade como tensão alta, cancros, diabetes e outras.

Com efeito, apontou que a Saúde Pública, hoje, tem o desafio de contribuir para a redução de mortes prematuras, que conceptualmente, ocorre antes dos 70 anos. “Deve-se lutar para que na idade avançada se morra pouco, isto através de intervenções relacionadas com o estilo de vida mais saudável desde alimentação adequada, actividade física, redução do consumo de tabaco e bebidas alcoólicas para que os que sobrevivem, vivam mais e com qualidade”.

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