UMA VÉNIA À MINHA IRMÃ QUE TEVE MORTE ANUNCIADA!

As minhas duas sensatas e saudosas avozinhas (que as suas almas continuem descansando na paz do Altíssimo), didacticamente, para alertar-me de certos comportamentos desviantes, usavam de metáforas. Uma figura de linguagem que produz sentidos figurados por meio de comparações. Repetiam-me sempre que se eu vivesse até à velhice como elas que ambas eram já nonagenárias um dia cruzaria com cães chifrados.

Na minha curta memória de inocente criança, interpretava o dito à letra e assustava-me embasbacado ao imaginar-me de caras com um “Buldogue” com dois apêndices no meio das orelhas! Na verdade o que queriam ensinar-me é que a gente, à medida que vai envelhecendo, sujeita-se a conviver com realidades incríveis e absurdas que em condições normais doutros tempos desafiariam as supostas leis do real. O poeta e ensaísta português Rui de Moura Belo (1933/1978) versejou a propósito o seu Poema com o título MORTE AO MEIO DIA: “No meu País não acontece nada/à terra vai-se pela estrada em frente/Novembro é quanta cor o céu consente/às casas com que o frio abre a praça/A minha terra é uma grande estrada/que põe a pedra entre o homem e a mulher/O homem vende a vida e verga sob a enxada/O meu país é o que o mar não quer”. Com efeito, no tempo das minhas avós, era tabu falar à toa da morte. Nunca se devia apontar o dedo em direcção a um cemitério. Nenhuma criança era permitida ver ou aproximar-se de um defunto. As crianças eram retiradas da casa onde houvesse uma morte, e só retornariam dias após o fim das exéquias. E depois eram informadas que “o fulano deixou-nos ("a hi side"); o beltrano ficou feio ("a bihide"); o sicrano desapareceu ("a mwalade"). Nunca se mencionava a palavra “morte”. E, não sei por que, mas muitas mortes aconteciam à noite. Da mesma maneira que até hoje não sei por que são proibidos enterros ao meio-dia. Só que, nos dias correntes, na casa onde houver falecimento, as crianças são convidadas a beijar a testa do seu ente querido defunto e a viúva (viúvo) a beijar os lábios do mesmo (mesma). Esse é momento de festa e de exibição de perfumes e vestes exuberantes. Leia mais...

Por Kandiyane Wa Matuva Kandiya

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