Ressurreição das relações diplomáticas Ruanda-França?

A notícia do arquivamento, a três de Julho corrente, pelo tribunal de Relação de Paris, do processo de nove ruandeses próximos do Presidente Paul Kagame, indiciados no atentado contra o avião do ex- -Presidente ruandês Juvénal Habyarimana, pode ser a ressurreição das relações diplomáticas Ruanda-França. De facto, as relações diplomáticas entre o Ruanda e a França conheceram um recuo sem precedentes desde o Genocídio de 1994, principalmente a partir do ano 2000, quando Kagame tornou-se Presidente do Ruanda. No centro das divergências estão duas perguntas sobre o genocídio do Ruanda. Enquanto o Ruanda de Kagame quer saber: quem apoiou os genocidas? A França quer saber: quem matou Juvenal Habyarimana, móbil do genocídio?

O Ruanda de Kagame tem uma resposta para a sua pergunta que aponta que a França não só ajudou como agiu a favor dos genocidas oferecendo logística. O Banco francês BNP Paribas, por exemplo, é acusado de ter financiado a aquisição de armas que foram usadas no genocídio e no momento a seguir ao genocídio. Kagame repetidas vezes acusou os soldados franceses da operação militar humanitária Turquesa, mobilizados em Junho de 1994, no Sul do país, de terem sido não só cúmplices, como também actores dos massacres. As declarações de Kagame foram também acompanhadas de acções diplomáticas concretas, tais são os casos da substituição do francês pelo inglês como língua oficial e de ensino no Ruanda em 2008 e a adesão do Ruanda à Commonwealth em 2009, só para indicar alguns exemplos.

Do lado da França, o interesse pelo caso das mortes dos presidentes Juvénal Habyarimana, ex-presidente do Ruanda, e Cyprien Ntaryamira, ex-presidente do Burundi, não pode ofuscar a morte da tripulação francesa que pilotava o avião abatido. Portanto, mais do que querer saber quem matou os presidentes do Ruanda e Burundi, a França quer saber quem matou os seus cidadãos. Para tal, apesar das acusações de Kagame e para fazê-las frente, a França iniciou, em 1998, uma investigação sobre os autores do atentado contra o avião presidencial. Foi na sequência dessa investigação que nove ruandeses próximos do Presidente Paul Kagame foram indiciados de envolvimento no atentado contra os presidentes. Contudo, a eleição de Emmanuel Macron para Presidente da França, em Maio de 2017, veio mudar o tratamento deste dossier e, por essa via, melhorar as relações diplomáticas entre os dois estados. Por exemplo, em 2018, o Ruanda reintroduziu o francês como língua de ensino no ensino primário e a França, no mesmo ano em Dezembro, abandonou a investigação ao atentado contra o avião que transportava os presidentes Juvénal Habyarimana e Cyprien Ntaryamira. Isso em diplomacia não é simples coincidência. Em Abril de 2019, aquando da comemoração dos 25 anos do genocídio, o executivo francês enviou, pela primeira, um representante, o deputado Hervé Berville, de origem ruandesa do partido La République en Marche, no poder em França. Leia mais...

Por Paulo Mateus Wache*

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