A conversa começa com um ligeiro equívoco meu. Foi bom. Roberto Chitsondzo, o carismático guitarrista e vocalista dos eternos “Bons Rapazes”, tratou de o desfazer: abriu o livro e falou de

 coração para os fãs e toda a sociedade moçambicana e não só.

Próxima sexta-feira, 10 de Maio, completam 30 anos de carreira.

Não, não. Este grupo foi constituído em finais de 1983 por Pedro Langa, Tchika e Hilário que vinham de um grupo chamado Xigutsa Vuma. Esses foram o embrião. Criaram, sob direcção de Pedro Langa, o grupo Ghorwane. Portanto, a data fixa de quando é que o grupo foi criado não existe, mas temos mais ou menos um parâmetro que nos pode indicar que, em Novembro de 1983, esses rapazes reuniram-se efectivamente para começar a trajectória musical. Na sexta-feira será o pontapé de saída para os festejos dos 30 anos, que culminarão no final do ano, no princípio de que teremos várias actividades. Apelamos, por isso, a quem quiser se associar a nós, quem quiser fazer uma exposição fotográfica, escrever um livro, fazer um livro de poesia, todas as actividades que possam reunir junto de nós e não só.

O que é que nunca se disse sobre os bons rapazes? Vocês sabem e nós não.

Eu acredito que aquilo que nunca se disse de nós outros é que somos verdadeiramente heróis…se calhar. Nunca ouvi ninguém dizer isso. Como também nunca ouvi ninguém dizer que somos verdadeiramente patriotas, mas os poucos termos que nos abraçam contentam-nos e fazem-nos ficar felizes. Já é muito bom ser chamado “Bons Rapazes” pela voz do Presidente Samora Machel.

Que Ghorwane teremos na próxima sexta-feira? Já não estão entre nós Zeca Alage, Pedro Langa. David Macuácua está a residir na Espanha.

O Ghorwane tem a particularidade de ter os seus temas. Portanto, estaremos com o Pedro Langa sim porque vincamos, desde à altura em que Zeca e Pedro desapareceram fisicamente, não deixar a música deles morrer. Vamos interpretar os temas que lhes tornaram queridos pelos fãs. O David está doente e naturalmente vai ficar satisfeito se souber que a banda que ele dirigiu acima de quinze anos continua. Acredito que podemos chamar a nós a responsabilidade de que a saúde dele pode melhorar se nós subirmos ao palco. Aliás, tem sido apanágio da banda não vacilar perante dificuldades. Continuamos iguais àquilo que somos.

30 anos de carreira e quatro álbuns editados. Majurugenta (1993), Kudumba (1997), Mozambique Relief (2000), Vana Va Ndota (2005). Estatisticamente fica-se com a sensação de que a média para o lançamento de um álbum varia entre 7 e dez anos. Para quando o próximo álbum? Claro, sem referir à trilha sonora que produziram para o seriado moçambicano “Não é Preciso Empurrar.”

Geralmente, também, costumamos apresentar o álbum quando ele está pronto. Não costumamos dizer que no dia tal vamos apresentar o álbum “x”. Acredito que estamos a criar todo o tipo de condições, todo o tipo de esforço para que ao longo dos próximos tempos possamos apresentar novos trabalhos. Mas posso avançar algumas das razões, plausíveis, para não termos pressa.

Por favor!

Valerá a pena apresentar um álbum nas condições em que estamos a viver? Em que a maior parte daquilo que são os dividendos das nossas produções vão para os bolsos de pessoas que não conhecemos? Os nossos fãs recebem a nossa música de forma não satisfatória. Falo concretamente dos discos piratas que andam por aí com a nossa música quando os nossos filhos, e nós próprios, estamos a morrer, se calhar, de fome e não temos condição nenhuma de beneficiar do nosso trabalho. Valerá a pena? É uma pergunta que deixo em aberto.

Mas…

As obras existem. Por exemplo, temos música que foi gravada em fita magnética que não consta de nenhum disco do Ghorwane. Existe também aquilo que é a nossa inspiração e até inéditos. Temos material. Mas a conjuntura que estamos a viver e sendo a banda Ghorwane de respeito não podemos embarcar nisso. Se pedimos para que nos respeitem é porque merecemos. Eu, pelo menos, não tenho jeito para “limpar as botas” seja lá de quem for para que reconheça a qualidade do nosso trabalho. Isto dificulta um pouco aquilo que são as nossas vontades quando queremos dizer aquilo que nós somos e algumas pessoas vêm com critérios que não são muito correctos. Resultado? Ficamos no nosso canto e dizemos que vamos continuar a resistir, como temos estado a fazer. Os meus colegas em alguns momentos dizem que estamos a vegetar. Outros dizem que, e sem quererem apontar o dedo, que nós somos também responsáveis por esta situação. Somos mais velhos e por essa razão devíamos ter ditado, se calhar, em anos atrás, o caminho. A nossa filosofia.

Outra questão é que a música do Ghorwane não é descartável. Acredito que algumas pessoas ainda estão a escutar as músicas gravadas em 1991. Acredito que outras só agora estão a conhecer as músicas gravadas e lançadas em 1997 e dizem “eh pá, esta música é nova.” Não, não é nova. Mas o consumo e a percepção dessas músicas é um pouco lenta para a nossa sociedade.

CONTINUAMOS A SAIR

 PARA O ESTRANGEIRO

Cedo conquistaram a Europa e, por conseguinte, era suposto serem convidados para participar em festivais internacionais no continente e fora dele. Não é o que se vê!

Cedo?! Não. Nem tanto. Quando começamos a sair para o estrangeiro tínhamos aproximadamente dez anos de carreira. Hoje continuamos a ir para um e outro ponto mas sem a publicidade de quem quer que seja. Nós vamos ao aeroporto, embarcamos, e vamos trabalhar. Continuamos a tentar manter os nossos contactos anteriores. É isto que pretendemos.

Que eu saiba, o vosso último espectáculo foi na França.

O último festival na Europa foi em Toulouse, França, no ano passado. Nem sequer foi noticiado (risos). Também quando fomos ao Brasil ninguém teve conhecimento (e volta a sorrir). Ninguém noticiou. Fomos a Portugal. Voltamos. Estamos calados e prontos.

Para o espectáculo da próxima sexta-feira haverá convidados?

São todos convidados.

Artistas, músicos?

Os artistas também podem ir assistir outros artistas. Neste concerto não teremos convidados. Aliás, é nessa perspectiva que estamos a dar o pontapé de saída para aquilo que pretendemos fazer a seguir.

Neste primeiro espectáculo será possível ver e recordar os primeiros integrantes da banda e outros que vieram depois como Riquito Mafambane, Tchika Fernando, Marciano Mondlane, Lote, Arsénio Sérgio, Moreira Chonguiça, Ivan Mazuze, etc,?

É interessante porque nós que somos os guardiões desta banda… Nós que ficamos com a feliz ou infeliz tarefa de manter esta banda viva recordamos com certa saudade tanto dos vivos como dos que já pereceram. Dos que já não pertencem a este nosso mundo está Pedro Langa, que a morte foi dramática. Zeca Alage, que a morte também foi dramática. Foram assassinados. Não tivemos qualquer tipo de resposta a isso. O Dingo, que foi o primeiro percussionista da banda, faleceu de malária. Depois temos outros colegas que não estão a viver cá (Moçambique), como são os casos do Tchika (membro da banda), Marciano Mondlane e agora David Macuácua que por razões de saúde não se encontra em Moçambique. Os restantes, alguns vivem aqui, outros não estão a tocar na banda, mas, enfim, sentimos que se calhar aquilo foi a escola de alguns que passaram por aquele palco do Desportivo para ir às grandes escolas, universidades em Cape Town, para alguns, e hoje têm nome na praça. Agradecemos. Agradecemos por em algum momento das suas carreiras terem feito algo para manter o Ghorwane vivo.

Há dias revi alguns espectáculos gravados pela TVM e foi para mim agradável surpresa ver David Macuácua a imitar na perfeição Zeca Alage e Pedro Langa quando no início da caminhada ele não era um dos três vocalistas principais já que essa tarefa cabia a si, ao Zeca e ao Pedro. Também está surpreendido com a performance dele?

Igual a nós próprios, tínhamos de avançar. Os companheiros não estão presentes. E a tessitura da voz dele daria para cantar aquelas músicas, ora ele tinha que cantar. Se não fosse ele seria outra pessoa. Neste caso coube a ele a tarefa de interpretar a música dos colegas. Assim como agora que ele não está presente há-de caber a outros colegas continuarem a cantar. Na verdade aquilo que quero dizer é que tal como o homem que criou a banda e sonhou que deveria baptizar com o nome de Ghorwane, que é um lago, e na gíria popular nunca seca, cremos que de facto estamos com longevidade e saúde contra o vaticínio de algumas pessoas que diziam que estávamos mortos fazia tempo (risos). Logo, não vai ser surpresa para ninguém quando chegarmos ao palco e sermos iguais a nós próprios, mais novos ou menos novos.

Este lago Ghorwane até onde pode ir atendendo que as mudanças climáticas são um facto e os componentes da banda já entraram para a idade de serem avós?

Uma vez fomos a Chibuto e as mamanas que têm as suas machambas naquela zona do Ghorwane diziam que Ghorwane já não está só para peixe, criou homens que até viajam e cantam pelo mundo fora em xangana, isso em canções feitas por elas.

Em suma…

Ghorwane é aquela banda que todos conhecemos. Boa. Tem pessoas capazes e que acompanham outros músicos, bons profissionais, bons compositores. Aliás, além dos compositores que a banda tinha estão a despontar outros compositores. A escola que é esta banda é uma coisa que deveria, quanto a mim, ser estudada e muito bem pelos académicos e trazer aqui para fora o que é que uma banda pode fazer para comunicação de um determinado povo, de uma determinada região. Sinto que o Ghorwane já não é uma questão do meu bairro, lá em Xai-Xai, onde nasci ou daqui de Maputo. A banda é conhecida do Rovuma ao Maputo. Então por que não se pensar que o grupo é um património desta nossa bela Pátria Amada?

 

DESTAQUES

 

 Eu acredito que aquilo que nunca se disse de nós outros é que somos verdadeiramente heróis…se calhar. Nunca ouvi ninguém dizer isso. Como também nunca ouvi ninguém dizer que somos verdadeiramente patriotas, mas os poucos termos que nos abraçam contentam-nos e fazem-nos ficar felizes. Já é muito bom ser chamado “Bons Rapazes” pela voz do Presidente Samora Machel.

 

As obras existem. Por exemplo, temos música que foi gravada em fita magnética que não consta de nenhum disco do Ghorwane. Existe também aquilo que é a nossa inspiração e até inéditos. Temos material. Mas a conjuntura que estamos a viver e sendo a banda Ghorwane de respeito não podemos embarcar nisso

 

Uma vez fomos a Chibuto e as mamanas que têm as suas machambas naquela zona do Ghorwane diziam que Ghorwane já não está só para peixe, criou homens que até viajam e cantam pelo mundo fora em xangana, isso em canções feitas por elas.