- Mia Couto, biólogo e escritor

A Paulina estava a enfrentar um momento difícil na sua vida e você foi dos primeiros a oferecer ajuda…

Ela é minha amiga, colega de profissão. Passou por momentos difíceis porque quando ela despontou como escritora-mulher, “quase a única” , conquistou projecção e fama dentro e fora do país. Estes atributos tornaram-na objecto de inveja aqui em Moçambique. Nós vivemos numa situação que o melhor é não existir. Aqueles que não existem e que ficam na linha mediana são os que ninguém observa, mas a partir do momento que alguém faz algo para sobressair está condenado.  

Quer se explicar?

É incrível como nossos valores são maltratados dentro de Moçambique e valorizados lá fora. Aqui quando és de um génio, ou mesmo quando te distingues de algumas pessoas, és atacado. A Paulina sofreu tudo isso mas de maneira nobre. Traziam estórias maléficas sobre ela. Atacavam-na como mulher, como pessoa, manchando-a.

Dizia-se que ela faz sucesso por tratar-se de mulher. Sendo assim ela decidiu sair de Maputo, de um ambiente que a asfixiava, e isso foi bom porque teve outras inspirações. Encontrou outras realidades, e o resultado disso é o livro “Niquetxe” por exemplo. No que concerne a ajuda, penso que ela auto-ajudou-se, porque apenas tivemos conversas como amigos e aconselhei-a.

Apoia que se traga a mediunidade para a literatura? 

Bem não sei como ela tratou o assunto mas para mim é importante sim, é uma questão altamente inspiradora. No fundo todo o escritor quer ser médium, partindo do princípio de que ele é capaz de traduzir coisas que estão na alma da pessoa. Só ele é capaz de entender e ajudar os outros fazendo o papel de tradutor.