Ensino bilingue tem potencial de desenvolver línguas moçambicanas

- Feliciano Chimbutane, docente e investigador

Moçambique é um país multilingue e multicultural. Já se sabe que a dado passo da sua história a língua portuguesa foi adoptada como língua oficial, a ser usada em contextos formais. Entretanto, após a independência, vários debates em torno desta decisão polarizam as atenções de vários segmentos da sociedade, sobretudo de académicos. Feliciano Chimbutane, docente e investigador, vem se dedicando a trabalhos de campo, que mostram até que ponto a teoria e a prática em torno do uso do português se compatibilizam. domingo conversou com este académico, que, entre várias questões, fala especialmente da supervalorização da língua portuguesa e da introdução do ensino bilingue no processo de ensino e aprendizagem em Moçambique. Segundo aponta, os resultados desta modalidade de ensino são animadores, no entanto “houve sempre vozes contra a introdução do ensino bilingue em Moçambique”. Acompanhe.

Qual é a situação linguística de Moçambique, passado pouco mais de 4 décadas?

Moçambique continua a consolidar o seu estatuto de país multilingue e multicultural. Para além das mais de 24 línguas bantu faladas no país e do português, língua oficial, temos também muitos falantes de línguas estrangeiras, que incluem o inglês, o árabe, o hindu, o gujarati, o urdu e ainda várias línguas africanas introduzidas mais recentemente. Com a grande mobilidade africana registada nos últimos tempos, sobretudo o movimento da zona central de África para a parte Sul do continente, também já se falam, em Moçambique, outras línguas africanas trazidas de países como Nigéria, Sudão, Somália, República Democrática do Congo, Ruanda, Burundi, entre outros. No entanto, ainda é preciso identificar claramente as línguas que são faladas e o número dos seus falantes.

Como é feita essa identificação?

Através do censo populacional ou de estudos mais específicos focalizando comunidades imigrantes. (Continuando), apesar desta situação linguística multilingue e multicultural e o facto de a maior parte da população falar línguas bantu como línguas maternas e como as suas línguas principais de comunicação, o português continua a ser a única língua oficial do país. Mesmo reconhecendo-se alguma valorização das línguas moçambicanas e algum uso em contextos formais, como a escola, estas línguas continuam à margem das funções oficiais. São línguas usadas basicamente na comunicação informal, incluindo, na comunicação familiar e comunitária.

Entretanto, o número de falantes da língua portuguesa aumentou…

Por causa da valorização e disseminação do português, sobretudo através da escola, o número de falantes desta língua tem estado a registar um crescimento significativo desde a independência nacional, em 1975. A título ilustrativo, em 1980, apenas cerca de 24% da população sabiam falar português, uma proporção que subiu para 39%, em 1997, e 50,4%, em 2007. Os dados de 2017 ainda carecem de alguma verificação, mas, tendo em conta o índice de analfabetismo reportado, estima-se que, actualmente, o português seja falado por cerca de 60% da população. Incluem-se aqui falantes com diferentes níveis de domínio desta língua, incluindo aqueles com competência bastante básica. Paralelamente, a proporção de falantes de português como língua materna também tem estado a crescer significativamente.

Neste caso, o que dizem os índices?

Se em 1980 apenas 1,2% da população tinha o português como língua materna, esta proporção subiu sucessivamente para 6,5%, em 1997, 10,7%, em 2007, e 16,4%, em 2017. Este avanço do número e proporção de falantes da língua portuguesa em Moçambique é bastante positivo, sobretudo considerando a importância desta língua na comunicação nacional e internacional e também o seu papel na arquitectura da própria moçambicanidade. Ser capaz de falar bem o português, as línguas moçambicanas e outras línguas é o desejável, pois isso é enriquecedor, não só para o indivíduo como também para o país. Esta seria a manifestação ideal do bilinguismo ou plurilinguismo. O problema surge quando este avanço acontece em detrimento do avanço das línguas moçambicanas. Leia mais...

TEXTO DE CAROL BANZE

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Fotos Carlos Uqueio

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