Para me sustentar minha mãe tinha de acarretar água e trançar mechas

Acabadinha de ser eleita deputada, Mércia Lucas Castela Viriato, nascida a 8 de Março de 1997, no distrito de Massinga, província de Inhambane, conta-nos uma das mais comoventes história de vida, marcada fundamentalmente pela sua condição física.

Apesar de não ter os membros superiores, concluiu o curso de Direito na UNISAVE da Maxixe, e escreve com os dedos dos pés o seu nome e é capaz de realizar tantas actividades como muitas pessoas fazem. “Eu faço tudo com os meus membros inferiores. Escrevo, cozinho, lavo e limpo a casa”. Revelou-nos que a sua infância foi “bastante complicada”, pois tal como toda a criança que requer cuidados especiais, sofreu “booling” e discriminação. Realçou que quando entrou para a escola primária, em 2003, a directora do estabelecimento de ensino recusou que ela frequentasse alegadamente porque a sua condição física iria influenciar no aproveitamento de outras crianças. Aconselhou para que frequentasse uma escola especial, mas a sua mãe não possuía condições, além de que não existia um estabelecimento para ensino especial. “Fui pedir uma caneta e um caderno. Escrevi o meu nome completo com os dedos dos pés. A directora ficou espantada. Até agora pergunto por que é que nós devemos estar numa escola especial? Por exemplo, estando numa escola onde todos não têm membros superiores, como é que vou desenvolver a minha capacidade mental? Estando numa escola onde existem diferentes tipos de pessoas, é possível desenvolver a minha mentalidade. Pessoas com deficiência, de uma ou de outra forma são excluídas na sociedade”. O curso de Direito, felizmente, contribuiu para abrir horizontes, como nos contou. Uma vez se encontrava doente e ao chegar ao centro de saúde entenderam que devia ser atendida prioritariamente devido a sua condição física. “Eu questionei porquê devia ser primeira a  entrar para o gabinete médico se na fila havia uma idosa e uma criança. Eu devia ser atendida porque não tenho membros superiores? Aconteceu o mesmo numa fila do banco em que discuti com uma senhora por ter cedido lugar a um senhor que vinha numa cadeira de rodas. Achou que eu estava a discriminar. Um cadeirante não é um doente mental. Porquê se diz que temos direitos iguais e na sociedade se faz diferença desses tais direitos? Não tenho membros superiores e você tem, tenho que parar na fila porque tenho uma capacidade idêntica à sua”. Andou descalça para a escola, mais de meio quilómetro, e ao chegar tinha que pegar com o mesmo pé o material didáctico e participar na aula. “Minha mãe não tinha condições. Para me sustentar tinha que trançar mechas, acarretar água. Não porque não tivesse família com condições. Como diz o ditado de Faraó, uma criança diferente é um demónio na família, é azar. Minha mãe foi abandonada e acabei crescendo como bastarda, fora de um lar”, realçou. Acrescentou que viu o sofrimento pelo que passou a sua mãe, de tal forma que, quando chegasse a hora da refeição, tinha de esperar que todos acabassem de comer justamente porque não tem membros superiores. “Quando analiso, não sei porquê faziam aquilo. Acredito que não iria afectar em nada. Fui abandonada pelo meu pai quando tinha dois meses de vida, alegando que na família dele não existiram pessoas sem membros superiores. São situações que me levam a pensar em construir um orfanato”, sublinhou.

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