Está de malas aviadas para a República Popular da China, onde vai desempenhar as funções de Embaixador de Moçambique naquele país asiático. Falamos de Aires Ali, que em conversa com domingo deslinda a sua principal missão na China, onde afirma que vai procurar estimular o empresariado daquele país a investir na agricultura aqui no nosso país.

A conversa com o antigo Primeiro-ministro moçambicano, agora embaixador na China, decorreu sem pré-aviso e, mesmo assim, Aires Ali foi destapando o véu daquilo que constituirá prioridade no reforço dos laços de amizade e cooperação bilateral entre Moçambique e China. Fez questão de sublinhar que está na derradeira fase de recolha de informação sobre todos os dossiers com a China para melhor compreensão antes de aterrar na capital chinesa, Beijing. À nossa equipa de Reportagem disse estar convicto de que “há que implementar o mais rápido possível os compromissos assumidos ao mais alto nível entre o presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi, e o seu homólogo chinês, Chin Jim Ping”.

Senhor Embaixador, a sua nomeação surge numa altura em que o mundo tem os holofotes virados para a China tendo em conta o seu crescimento económico rápido nos últimos anos, apesar de agora se verificar uma pequena desaceleração. Que prioridades elege para o fortalecimento das relações comerciais e diplomáticos?

Para começar, dizer que a amizade e cooperação com a República Popular da China é histórica, antiga, profunda e estratégica. Praticamente iniciou com a nossa luta de libertação nacional, uma vez que mesmo antes da nossa independência já nos relacionávamos com os chineses e muito bem. Naturalmente que nesta fase, e em pleno século XXI, e tendo em conta o desenvolvimento económico da China, é oportuno acompanharmos o comboio rumo ao nosso crescimento económico projectado para este século.

Crescimento económico ao nível da China?

Ter um parceiro económico como a China é oportuno na medida em que podemos desenvolver muito rapidamente. Quanto às áreas de cooperação já foram eleitas e decididas pelos governos, particularmente pelos presidentes Filipe Nyusi e Chim Jim Ping e recentemente foram revisitadas. Portanto, sinto-me privilegiado por ter a oportunidade de implementa-las, ou seja, a minha missão é facilitar para que os acordos sejam concretizados de forma célere e mais efectiva.

Estamos a falar de que acordos?

O mais importante é que o nível de cooperação entre os dois países foi elevado ao patamar mais alto. O pacote em si tem diferentes e variadas áreas. A China considera Moçambique um parceiro prioritário, o que significa que temos um vasto leque de matéria de cooperação.

Mas, a questão que colocamos é sobre áreas específicas…

Temos várias áreas. Por exemplo, temos acordos orientados para o sector da Educação, cooperação económica, transferência de tecnologias, entre outras. No meu entender é importante implementar de forma rápida aquelas acções que vão-nos ajudar a sair da pobreza.

Por exemplo?

Estou a falar do sector da agricultura, onde precisamos de erradicar a fome, mas também desenvolver infra-estruturas e poder circular e transportar as pessoas e bens por todo o país, continuar com electrificação rural, construção das barragens para reserva de água e irrigação dos campos agrícolas, reduzir as importações de produtos básicos. Mas, para tal, é necessário abraçarmos o conhecimento, experiência e a capacidade técnica dos chineses.

Desenvolver a agricultura recorrendo a técnicas chinesas?

Sim, e não é só para resolver o problema fundamental básico que é a fome, mas, como disse antes, precisamos partir daí para exportarmos para outros mercados incluindo para a própria China, mas também é uma actividade que vai absorver muita mão-de-obra atendendo que a maior parte dos moçambicanos vive na base desta actividade.

E a agro-industria?

Obviamente que associado a este sector está a industrialização, ou seja, temos que caminhar rapidamente de modo a acompanhar os passos de outros países e a indústria afigura-se como factor estratégico para o desenvolvimento.

Como poderemos trilhar por esse caminho que tem sido um desafio quase que permanente para o nosso país?

Há que criar mais parques industriais para não nos concentrarmos apenas na fábrica de produção de alumínio da Mozal. A China tem tecnologia de ponta que devemos explorar para além da troca de experiências. Diria, de forma resumida, que as prioridades vão para a agricultura e industrialização de Moçambique, o que naturalmente implica a transferência de tecnologias. Para isso, é necessário apostar no sector da Educação de modo a que os nossos jovens aprendam as novas técnicas de produção agrícola para que rapidamente possamos sair da problemática da falta de alimentos para a população.

FORMAÇÃO NA CHINA

A propósito da Educação. Como funciona a nossa cooperação com a China nesse domínio?

Existem bolsas de estudo para os nossos estudantes deslocarem-se para formação na China. Estamos a falar de mais de 100 bolseiros, número que vai oscilando à medida que outros concluem os cursos. Também existem parcerias entre empresas chinesas e moçambicanas para a formação de quadros a vários níveis que devem ser potenciadas para o contínuo aprimoramento das tecnologias por parte dos nossos jovens que se deslocam àquele país. Logo, deve haver o envolvimento de privados na formação dos jovens moçambicanos.

Está a falar de formação de moçambicanos na China, entretanto, temos um centro de transferências de tecnologias dos chineses em Boane. Como se pode tornar mais dinâmico o seu funcionamento?

É preciso analisar a questão a dois níveis. A questão tecnológica é importante e seria a base de formação dos nossos técnicos que posteriormente poderiam trabalhar com os camponeses ensinando-lhes as novas técnicas de produção. A cooperação não deve resumir-se apenas na criação de centros tecnológicos, e aqui volto a repisar a importância do envolvimento do sector empresarial moçambicano que deve estabelecer parcerias com empresários chineses.

Que tipo de parceria?

Temos de absorver o conhecimento dos chineses de modo a que a tecnologia que estão a aplicar no solo e nas condições da China seja transferida para Moçambique e nós próprios termos a oportunidade de aprender as suas técnicas para que não sejam empresas chinesas a produzir arroz de qualidade no nosso solo. Temos de criar a nossa capacidade tecnológica de produzir arroz, por exemplo, em grandes quantidades, de tal forma que os centros de investigação devem ser acompanhados com a transferência de tecnologias para Moçambique.

Então, neste momento, essa transferência de tecnologias não é visível?

Quando falamos da formação tecnológica, estamos a dizer que os estudantes em formação na China devem ter a oportunidade de, regressados ao país, eles próprios terem iniciativas individuais de investimento, uma vez que não podem terminar a formação e ficar à espera de serem empregados. Eles têm que concertar com os chineses as melhores formas de vir aplicar os conhecimentos adquiridos durante a formação. Ter a capacidade de convencer empresas chinesas a investir em Moçambique. Eles devem persuadir aos seus parceiros a virem ensinar os camponeses nas suas próprias machambas, por exemplo, a produzir mais tomate, hortícolas, entre outras culturas agrícolas.

ERROS DO PASSADO

Moçambique já experimentou várias formas de produção agrícola com a África do Sul, Zimbabué, Vietname, Europeus, entre outros. Acha que com a China vai ser diferente?

Já tivemos experiências boas e achamos que é altura de revisitar para não voltarmos a cometer os mesmos erros do passado. Nos dias que passam, o importante é a transferência de tecnologias, isto é, não podemos apenas trazer máquinas. É preciso ensinar as pessoas a usar devidamente essas ferramentas, razão pela qual volto a frisar a importância da educação técnico-profissional.

E os camponeses?

Os nossos camponeses devem aprender a praticar a agricultura mecanizada para sair da subsistência para pequenos produtores associados que devem ser acompanhados por engenheiros agrónomos que estão a ser formados quer nas nossas universidades quer na China. A melhoria da qualidade da semente, dos próprios solos, associadas as novas técnicas agrícolas é outro factor a ter em conta. Não devemos ter vergonha de revisitar o passado, tirar ilações tendo como horizonte o futuro para que Moçambique caminhe rapidamente para o auto-sustento ou segurança alimentar.

Falemos das infra-estruturas que são um elo importante na cadeia, Nos últimos tempos, o nosso país recorre ao endividamento para a sua construção de estradas e pontes, entre outros, quando no passado a estratégia era estabelecer parcerias público privadas que nos pareceram muito vantajosas. Como sair das dívidas?

Volto a bater na mesma tecla de que temos que aprender dos erros das experiências anteriores, ou seja, temos que encontrar várias formas, várias modalidades para tirar maior proveito, o que significa que se é possível fazer parcerias com empresas, óptimo. Se for para obter créditos concepcionais também vale. Se for para erguer uma determinada infra-estrutura e depois o Estado pagar também vale. O importante é haver uma combinação de vários factores, que devem ser analisados caso a caso para se escolher a melhor hipótese e que não põe em causa quer os investidores assim como os donos dos empreendimentos. No nosso caso, as infra-estruturas ainda são necessárias para que tenhamos mobilidade de pessoas e bens e escoamento da produção agrícola. As infra-estruturas devem ser construídas, mas tendo em conta as modalidades que não põem em causa o desenvolvimento do país.

A outra questão em manga com a China é a cidadela parlamentar que ao nosso ver nem água vem nem água vai. Que tem a dizer a esse respeito?

O importante é que a cooperação parlamentar já está enraizada com a assinatura de vários memorandos de entendimento. Recentemente, como deputado, estive na China integrado na visita do Presidente Filipe Nyusi onde o assunto foi abordado. Penso que as bases estão criadas entre os governos, por um lado, e parlamentares, por outro. É dado adquirido que a cidadela vai avançar.

Domingos Nhaúle
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