Do quarto 18 da Residencial Afshin, Rua Monomotapa, cidade de Nampula, toca o meu telefone. São 1.40 minutos, do dia 12 de Julho de 2019. Esperava uma surpresa desagradável. Não era, embora para ela fosse chamada a minha capacidade de organização. Pedem-me para estar no aeroporto de Maputo às 4.00 horas, porque estava convidado a ir a Nipepe, província do Niassa, terra que me viu nascer, apesar de não ser dali natural. Abrir parêntesis: se nascer é o mesmo que ser natural, é assunto doutra índole, mas que neste caso não é, tendo em conta que há quem nasceu na terra de ninguém, numa fronteira ou num navio sem ser daí natural. Fechar parêntesis! Respondi que não me encontrava em Maputo, mas sim em Nampula, donde sou natural, mas não dali nascido. A resposta foi: ainda bem, vá ao aeroporto de Nampula, às 7.00 horas.

 Reprogramei-me para estar em Nipepe uma hora depois, usando uma avioneta que faz ligações regionais. É em Nipepe onde caiu o meu cordão umbilical, quando nem sabia que não era dali, visto que os meus ancestrais, incluindo pais, eram da outra margem, em Méti, distrito de Lalaua, em Nampula, realidade de que me apercebi muito mais tarde, aos 14 anos. Era uma rara oportunidade voltar a pisar algumas regiões de Nipepe. À sede fora algumas vezes. Enquanto isso, era imperioso deixar rolar o programa paralelo para não claudicar, nomeadamente, no mesmo dia o resto da minha comitiva familiar devia chegar a Méti, margem direita do rio Lúrio, onde havia uns afazeres a não falhar.

Em Nipepe, estive ocupado até às 15.00 horas, depois do que pedi boleia que me deixasse junto ao grande rio que separa as duas províncias ao mesmo tempo que telefonava para Méti a solicitar outra boleia (motorizada) que me levasse à aldeia onde devia estar. E como não tem fronteiras, foi de facto a Movitel que me salvou e tive o contacto. Chegado ao Lúrio, usei as minhas pernas nesta margem até onde se encontrava uma canoa à disposição para atravessar ao encontro do outro lado, passando entre os espinhos da floresta galeria, extenso areal antes de me colocar no meio de transporte que mesmo em Julho é necessário visto que o grande rio é de água corrente permanente. Já estava com quem me vinha resgatar. Porém, a margem direita do Lúrio por aquela região é demasiadamente escarpada. As minhas pernas ficaram “partidas”. Não podia mais, mesmo tendo em conta que todos os dias faço pelo menos 51 degraus a subir e descer para/do meu serviço. Tive de me arrastar, coitado! Até apanhar a motorizada, já eram 17.00 horas e na latitude onde se encontram Nipepe e Méti é um verdadeiro crepúsculo, para não dizer noite. Veio a outra surpresa: vamos fazer os 36 quilómetros restantes para a aldeia de Neôce só com o luar, porque o meio de transporte em presença não dispunha de nenhuma lâmpada. Porém, com a certeza imbatível do motociclista, chegaríamos.

O caminho serpenteado está memorizado no génio ao volante, tal que a única tarefa que eu tinha era saber estar na mota para não atrapalhar o mestre. Ora à direita ora à esquerda, travando sobre calhaus e evitando árvores recentemente caídas sobre o trilho, em consequência de recentes queimadas descontroladas, mas ele bem seguro. O homem tinha o caminho todo formatado tal igual estava na sua ida ao rio Lúrio. Mesmo noite, dizia: aqui é a machamba do seu tio, ali do seu primo e, mais à frente está a minha propriedade, onde se quiséssemos poderíamos ir pernoitar. Mas a tarefa é fazer-lhe chegar hoje mesmo, para o gáudio dos seus familiares que estão à espera.

A 2 quilómetros da aldeia há uma torrente que lhe dá nome: Neôce. De água igualmente corrente e permanente. Diz para não me descalçar, porque se encarregaria de me carregar às costas, depois de fazer atravessar a motorizada. Aconteceu. “Nenecou-me”, como diriam as crianças! Chegámos ao local onde se encontrava muita gente para uma cerimónia dos 40 dias sobre a morte da “Segurança do Segurança”, minha tia (mãe), que fez crónica neste cantinho, publicada em 24 de Junho de 2018. Chegámos na data prevista, isso é que foi bom.

Uff! Avioneta, carro, canoa, pés, motorizada e costas de um homem. Como quem diz: vim de longe; ou não é por acaso que tanto numa margem como na outra do rio Lúrio se fala recorrentemente de ponte!

Por Pedro Nacuo
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