Estava previsto que o avião partiria de Nampula às 19h30, do sábado antepassado, com destino a Maputo. Quando assim é, duas horas antes deve começar o check in. Agora com o concurso da Ethiopian, acompanhia aérea (que já fora única) tem acertado nos horários e, à mesma hora, estava-se a preparar um voo da outra, com o mesmo destino. A diferença, já se sabia, seria na hora de chegada.

Por causa do hábito feito cultura, eu devia estar exactamente à hora prevista. Por isso, um casal amigo de há muito tempo de colegas jornalistas, que queria pôr a conversa em dia, devia vir ao aeroporto para o normal papo, à espera da hora de partida.

Um duplo reencontro que mereceu alguns cálices de um whisky e de cerveja para “bolsos de jornalistas”, a acompanhar o driblar da conversa. Duplo porque se José Arlindo (homem de câmara da TVM) esteve escalado em Lalaua e a Teresa Cunha (repórter da mesma televisão) em Moma. Então era o primeiro encontro prolongado entre o casal e o amigo-colega que, por sua vez, estivera, sim, em Lalaua (onde se achava Arlindo) e Nacala (onde nenhum deles esteve, porque para lá havia sido escalada uma equipa da qual nenhum deles fazia parte).

Conversar sobre quê? Quase nada. Saudades do passado em que a amizade sustenta. Aos dois filhos que acompanhavam o casal mostrar-lhes fotos em que estivemos juntos em 2000, numa festa em Chiúre, Cabo Delgado, antes de eles terem sido “programados”. Perguntar-lhes se reconheciam as pessoas em pose. De facto não faziam ideia. Na verdade era o papá, o amigo do papá, o Luís Namajeu e Ismael Nurmomade, ambos jornalistas, todos putos e sem saliência das barrigas. Para aligeirar: elegantíssimos! Mas houve quem estragou o adjectivo ao nos qualificar como então subnutridos. Risos!

Hoje, principalmente o Arlindo (perdoe-me) é tão avantajado que os putos não devem ter percebido quanto má foi a história para que o pai tivesse sofrido tamanha metamorfose, o tio como ficou sem bigodes e com cabelo estranhamente todo grisalho, quando a careca não é feita como habitualmente.

Era mau agouro! Já no avião e tendo sido satisfeito o meu pedido de me sentar na cadeira da janela (mesmo em voos nocturnos gosto de ver não sei o quê…) ocupei o assento enquanto esperava por quem viesse a ser colega de viagem, na poltrona ao lado. Não tardou. E era um senhor homem!

Três vezes mais forte e corpulento que o meu amigo que estava a conversar comigo no restaurante do aeroporto. Rendi-me silenciosa e cobardemente ao mesmo tempo que, na verdade, ocupava o assento à direita. Vi, com os meus próprios olhos, um braço igual à minha coxa e o nosso perímetro remexeu assim que o passageiro se acomodou.

Veio a hospedeira pedir que por momentos se sentasse atrás daquela fila, que calhava nas cadeias de saída de emergência e que depois de o avião levantar o voo poderia retomar o seu lugar. Achei que me livrava. Assim que o avião se estabilizou recebeu ordens de voltar ao seu lugar. Senti-me de novo sufocado.

A conversa entre os vizinhos (eu e ele) começou a fluir. Penso que ele não entendeu o verdadeiro alcance que residia sobretudo no esconder do meu desconforto por ter ficado literalmente preso junto à janela, quase enquistado. A comida foi distribuída quando o avião saía da terra firme para o mar (sensivelmente sobre Quelimane) a seguir viria a zona de turbulência que calha com a foz do rio Zambeze e aí eu nem podia mexer os talheres e o chá acompanhante ia dançando. A tudo isso se adicionava a falta de espaço.

O meu companheiro estava excepcionalmente autorizado a ter, durante todo o voo (incluindo no levantamento e na aterragem), a cadeira reclinada, porque doutro modo não poderia caber no espaço. Não havia espaço nem para que fosse aos lavabos. Seria tanta a inconveniência do que a dor da bexiga que se queria livre.

Chegou o tempo em que só me alimentava do meu silêncio feito de questões interiores, todas apontadas para a exclusão: porquê não há cadeiras contando com pessoas assim, porque é que a Embraer não pensou em passageiros assim… e logo esta fabricante com a qual conseguimos conversar até nos passar umas comissõezinhas, por causa das quais muitas cabeças vão rolar! A lista dos porquês sem respostas era infinita.

Chegámos a Maputo pouco antes (10 minutos) da hora prevista e valeu! Os termómetros diziam 20 graus centígrados. Mesmo assim, fui um dos últimos a descer, porque estava à espera que o vizinho descongestionasse a minha saída para o corredor. É verdade que os vizinhos não se escolhem.

Por Pedro Nacuo
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