Uma vez mais meti-me no chapa. Tinha de chegar a Matola-Gare. Para matar o tempo levava uma revista já carcomida pelo tempo. Queria voltar a ler uma reportagem do jornalista Fernando Assis Pacheco.

Ainda não entrara e jáo cobrador me indicava, em tom autoritário, onde me devia sentar. “Madala, vai sentar la no ultimo banco. Não quero discutir contigo nem perder tempo. E dinheiro trocado. Nada de estórias”.

Ao ouvir a palavra madala roscara a cabeça com o intuito de ver a quem cabia aquele substantivo agridoce.

Estarreci. Atras de mim não havia vivalma. Psicologicamente abatido, fui sentar-me onde ele me indicara. A minha mente estava as voltas. Olhei para o meu franzino corpo e as coisas não encaixaram. Madala. Madala. Madala.

Eu…Madala?

Sem saber bem o que fazer, senti que a minha mão direita tinha desaguado no bolso direito das minhas jeans e de la retirara a minha carteira de amilorido composto (antidepressivo).

Parti metade do comprimido e engoli. Sem água. O meu coração galopava. Tal e qual a um puro sangue na pradaria.

Imerso em mim, subitamente, sou sacudido por duas vozes picantes; duas senhoras conversavam em tom bastante audível. Não me recordei de vê-las a entrar. Senti que aquela de madala tinha-me nocauteado.

‒A minha filha não dormiu em casa.

‒ Não dormiu em casa? ‒questionou a companheira.

‒Sim. E não foi a primeira vez. Esta sempre a aprontar. Não sei que tipo de amigas tem.

‒Hum…ela tem quantos anos?

‒15 anos.

‒15 anos! E tu, como mãe, o que e que fizeste?

‒Nada. Estou cansada de falar com ela. Não me da ouvidos. Vocêfala, fala, fala e nada. Não sei como são estas crianças de hoje.

‒O pai sabe que ela tem dessas escapadelas?

‒ Não. Nunca lhe falei. Conheço-o bem. Vai comecar a atirar as culpas todas para cima de mim. Ate porrada posso apanhar. Mas eu não tenho culpa. A miúda não me da ouvidos.

‒Haaaa. A miúda não dorme em casa e ainda estas por comunicar ao teu marido porque tens medo que ele te bata? E se um dia a miúda aparecer gravida? Como e que vai ser?

‒yuuu… seráa minha morte.

‒Tens de dizer ao teu marido. A miúda sótem 15 anos. O pai não sabe o que esta a acontecer. Talvez ela o oiça.

‒Aquele…

‒Aquele o que?! E o pai. Tem direito de saber. Imagina se ele descobre. Vai pensar que andas a acobertar os desvios da tua filha. Tu mesma dizes que jánão sabes o que fazer. Envolva o teu marido.

De repente, o mini-bus chiou para a esquerda, depois para a direita e imobilizou-se bruscamente diante de um buraco bem gordinho.

‒Acho que aquele gajo bumou ‒ vociferou o motorista do nosso mini-

-bus.

O outro chapeiro, para não atropelar um txova-xitaduma que circulava em contramão, vira-se forcado a entrar na nossa faixa de rodagem. Não fosse a destreza do nosso condutor…

Repentinamente, as conversas passaram a ser outras. Fiz um esforço titânico para me concentrar no texto de Francisco Assis Pacheco, mas…debalde.

O fantasma da idade voltava a povoar-me a mente. Eu... madala? Voltei a olhar para o meu corpo franzino. Milímetro a milímetro. Algo não encaixava. Para a minha desgraça, a conversa entre as duas senhoras tinha murchado.

Texto de André Matola

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