O muro da discórdia!

Oiço concidadãos meus sussurrando, murmurando, ciciando, rumorejando, cochichando e zunzunando em contestação ao muro que se ergue imponente na fronteira entre Moçambique e África do Sul. Sim, a África do Sul está a construir o muro na fronteira com Moçambique, cuja fase inicial cobre uma distância de oito quilómetros e com um custo de oitenta e sete ponto cinco milhões de randes, um valor correspondente a pouco mais de quatrocentos milhões de Meticais. Diz-se que o muro vai cobrir a região que vai de Ismangaliso até ao Parque dos Elefantes de Tembe. O argumento central do Governo sul-africano é o combate ao contrabando. Se a causa é tão nobre qual é a razão de sussurros e murmúrios da nossa parte?

Dos argumentos que consegui captar dois me parecem ecoar mais nitidamente a história e cooperação. Dizem os meus concidadãos que os sul-africanos não deveriam construir o muro porque nós os ajudámos no tempo do “apartheid”, viveram na nossa terra, e as cidades da Matola e Maputo foram atacadas por albergarem membros do African National Congress, hoje no poder na África do Sul. Portanto, não era expectável essa atitude da parte do Governo da África do Sul. Por esta mesma razão histórica o argumento de cooperação ganha robustez. A pergunta dos sussurros é: se o Governo sul-africano é amigo por razões históricas por que constrói o muro unilateralmente? Vou tentar emitir a minha opinião sobre este argumento de razões históricas, repito, é apenas opinião. 

Sobre as razões históricas, é facto que as nossas relações são seculares, desde a época da expansão Bantu, por volta do século três da nossa era. Contudo, elas nem sempre foram pacíficas. O exemplo mais eloquente é o mfecane, “o esmagamento” ou “difaqane”, “a dispersão de tribos” no século dezanove (1800 a 1828). Foi por causa do “difaqane” que Soschangane e a sua tribo fugiram da Zululândia e entre 1822 e 1827 e se estabeleceram em Moçambique, formando o império de Gaza. Ademais, o capital sul-africano desenvolveu uma estratégia regional que incluía o Sul de Moçambique, abaixo do paralelo 22, como reserva de mão-de-obra para a indústria de mineração. Foi neste contexto que a Convention on Labour Recruitment foi assinada, em 1909, entre Portugal (colonizador de Moçambique) e a África do Sul e revista sucessivamente em 1928, 1930 e 1964. Portanto, o apoio ao African National Congress é apenas um dos marcos da nossa relação secular, que talvez poderia fortificar os sussurros dos meus concidadãos. Leia mais...

Por Paulo Mateus Wache*

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