Sexta-feira de fúria!

O Egipto vive tempos de tensão com protestos a serem a ponta do iceberg do mal-estar que se vive nas terras do Faraó. As tentativas de protestos têm sido sufocadas pelas Forças Armadas desde 2019, quando Mohamed Ali, activista anti-governamental, convocou protestos contra o Governo do Marechal Abdel Fattah al Sisi exigindo a sua demissão. Contudo, a partir da terceira semana de Setembro corrente, os protestos estão a tomar contornos preocupantes porque começam a causar mortes. O caso dos protestos do dia 25 de Setembro, a “sexta-feira de fúria”, segundo os manifestantes, resultou na morte dum jovem de 25 anos de nome Sami Wagdy Bashir, pode, tal como na Tunísia, em 2011, mobilizar mais pessoas a aderirem aos protestos.

A preocupação com o curso dos protestos torna-se relevante dada a nobreza da causa dos protestos. Sim, os protestos, desta vez, são nobres porque são contra uma decisão pouco sensata de al Sisi, a de demolir a nível nacional todas as casas construídas ilegalmente. Esta decisão é incendiária por várias razões, com maior destaque para a dignidade humana e precariedade económica das pessoas afectadas pela decisão.

Em relação à dignidade humana parece sensato que o estado que se preze como tal se preocupe com a questão da habitação condigna para os seus cidadãos. Nesse sentido, a demolição faz sentido em termos estéticos e legais se o estado for capaz de prover uma habitação condigna aos desalojados. Demolir por demolir, deixando as vítimas desse processo a Deus dará, é, no mínimo, uma medida desumana, e por isso mesmo revoltante. Então nesse caso as revoltas não são necessariamente contra al Sisi, mas sim contra uma decisão dum governo que se revela contra o estado enquanto uma comunidade de valores e lugares ao serviço do bem-estar comum. Está claro que uma decisão de demolir sem alternativas de habitação para os afectados é uma decisão contra a dignidade humana, contra o bem-estar e, por essa via, contra o estado, por ser iníqua e contra o povo. Leia mais...

Por Paulo Mateus Wache*

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