O fórum composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS) realizou, no dia 14 de Novembro corrente, a sua décima primeira cimeira. O seu surgimento foi inspirado pelo relatório de Jim O’Neil publicado em 2001 com o título “Building Better Global Economic BRICs” e o tempo tornou o fórum uma referência incontornável no sistema in-ternacional. A partir de 2010, os BRICS tornaram-se uma espécie de protectores das pequenas potências e parceiros, no sentido de ganhos mútuos, das grandes potências, emergindo assim a Multipolaridade Inclusiva e chegando ao fim o período da hegemonia ocidental. Graças aos BRICS, o mundo hoje vive um período pós-hegemónico. Contudo, a Declaração de Brasília, de 14 de Novembro de 2019, mostra sinais de perca de coesão do fórum. Em termos de análise há pelo menos três razões para a, talvez, aparente perca de fôlego, nomeadamente: a perca das suas vedetas, o aumento do embate exterior e o aumento da burocracia interna.

Quanto à perca de vedetas importa mencionar que a deposição do Partido Trabalhista na Presidência do Brasil fragilizou profundamente a proactividade dos BRICS. Lula da Silva e Dilma Roussef eram da esquerda e podiam facilmente intera-gir com a China que também tem um governo da esquerda, a África do Sul liderada pelo ANC, que apesar do hibridismo, tem uma forte tendência de esquerda e a Rússia que, apesar dos esforços de passar para a direita, tem um ADN da esquerda. Toda esta similaridade ideológica ajudava ao fórum a ser mais unido e a Índia era arrastada nessa sinfonia da esquerda. A ascensão da extrema-direita no Brasil, com Jair Bolsonaro, representou um recuo na coesão e, sobretudo, consolidação dos BRICS. O facto de o Brasil ser presidente dos BRICS este ano fragilizou ainda mais o fórum. Importa realçar que durante a campanha eleitoral Bolsonaro foi um crítico acérrimo da China e chegou mesmo a afirmar que o Brasil estava a vender o seu território à China e era preciso reverter essa situação. Ou seja, o governo de Bolsonaro é eminentemente pró-americano. Portanto, uma das razões da perca do fôlego dos BRICS é a existência, no seu meio, de um ’traidor”.

Em paralelo à perca de vedetas, os BRICS estão a enfrentar o maior emba-te externo desde 2017, com a ascensão de Donald Trump a presidente dos EUA. Trump tem movido contra os líderes dos BRICS ’China e Rússia – uma guerra sem quartel. Se com a China o aspecto mais visível é a guerra comercial, com a Rússia a face mais visível são as sanções económicas. Este embate combinado com a fragilidade, imposta a nível interno pelo posicionamento do governo do Brasil, faz com que os BRICS tenham dificuldade de implementar os seus projectos. Contudo, nem tudo está mau, porque se os BRICS estão neste momento a viver uma fase de menor coesão, o que dificulta a consolidação, o Ocidente também está a atravessar uma fase, igualmente, de menor coesão devido aos posicionamentos unilaterais de Trump. A mais recente evi-dência da menor coesão do Ocidente foi dada pelo Presidente francês que foi assinar um acordo comercial com a China e afirmou que a Organização do Tratado Atlântico Norte (OTAN) estava em morte cerebral. Assim, o embate externo fragiliza os BRICS sem poder provocar danos maiores porque os mentores do embate também não estão coesos.Leia mais...

Texto: Paulo Mateus Wache*

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