Há seis semanas, as autoridades de Gibraltar apreenderam um petroleiro iraniano que acusavam de estar a violar as sanções económicas da União Europeia contra a Síria. Duas semanas depois, o Irão respondeu apreendendo um navio britânico que acusou de estar a violar as normas internacionais de navegação marítima. Depois de semanas de negociações, as autoridades de Gibraltar decidiram libertar o petroleiro iraniano, mesmo depois de, à última hora, Washington ter intentado um pedido judicial para “manter cativo” o navio iraniano. A decisão do Gibraltar configura-se, assim, como mais uma derrota de Trump na sua declarada luta contra Rouhani. Esta história torna-se interessante analisar por três motivos: primeiro, a motivação de Washington em pretender “cativar” um petroleiro alheio; segundo, o comportamento “desafiante” do Gibraltar que recusou vergar-se aos EUA; e, terceiro, as narrativas “vendidas” à opinião pública nacional e internacional pelas autoridades de Gibraltar e de Teerão.

O Gibraltar é uma pequena Península situada no extremo sul da Península Ibérica. Motivo de tensão entre a Grã-Bretanha e a Espanha, o Gibraltar é um território ultramarino britânico, mas reivindicado pelos espanhóis que consideram ser território seu. A pequena península viu- -se mergulhada na contenda entre os EUA e o Irão em Julho passado, quando os Marines Reais da Grã-Bretanha apreenderam, a pedido de Washington, o petroleiro Grace 1 nas suas águas territoriais. As autoridades britânicas justificavam a sua acção com a eventual violação iraniana das sanções da União Europeia por supostamente o navio estar a transportar petróleo para a Síria. As autoridades iranianas, por seu turno, negavam a alegação e consideravam a detenção do petroleiro como um acto de pirataria. Duas semanas depois da apreensão do Grace 1, Teerão respondeu detendo um navio britânico sob alegação de que este estava a violar normas internacionais de navegação marítima.

O caso da apreensão do Grace 1 foi levado a tribunal e, na passada quinta-feira, o Gibraltar decidiu libertar o petroleiro. No entanto, a decisão de libertação foi tomada a despeito da tentativa dos EUA, poucas horas antes, terem submetido ao tribunal supremo do Gibraltar um pedido para manter cativo o petroleiro iraniano. O pedido dos EUA pode ser enquadrado na estratégia da administração Trump em “asfixiar” o Irão na expectativa de que este possa mudar de comportamento. Aliás, desde a sua ascensão à Casa Branca, e na tentativa de desfazer os acordos assinados pelo antecessor governo de Barack Obama, Trump definiu o Irão como um “alvo a abater”. Evitando uma confrontação militar com o país do Médio Oriente, a administração Trump tem privilegiado as sanções económicas como um instrumento de pressão aos persas para que estes parem de apoiar grupos e posições regionais que são contrários aos interesses dos EUA e seus aliados. Nessa base, os EUA rotulam o país persa como um Estado apoiante do terrorismo. Não é de admirar, portanto, que Washington tenha instado as autoridades britânicas a apreenderem um navio iraniano cuja venda da carga poderia significar algum fôlego na asfixia económica em que se encontra.  Leia mais...

Por Edson Muirazeque *

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