O programa nuclear iraniano remonta à década de 1950, no Governo de Xá Reza Pahlavi, com apoio dos EUA. Contudo, a Revolução Islâmica de 1979, hostil aos americanos, interrompeu o programa que já estava muito avançado. Devido à tensão entre o Governo revolucionário do Irão e os EUA, o Irão retomou o programa nuclear com apoio russo em 1995. Desde então o programa nunca foi aceite, apesar de o Irão argumentar, sempre, que o programa destina-se a fins pacíficos. Na realidade, o programa só passou a ser diabolizado porque o Governo revolucionário iraniano é anti-ocidental, tendo como seus principais parceiros a Rússia e a China.

O anti-ocidentalismo do Irão e pretensão de desenvolver um programa nuclear levou o Ocidente, através do Conselho de Segurança, a aplicar-lhe sanções. Mas o Irão continuou o seu programa até 14 de Julho de 2015, quando o Acordo de Desaceleração Nuclear com os EUA, França, Reino Unido, China, Rússia e Alemanha foi assinado. O acordo ficou conhecido como Acordo do Grupo P5+1 e Irão por ter sido assinado por cinco países membros permanentes do Conselho de Segurança e a Alemanha. Segundo este acordo, o Irão, sob a inspecção da Agência Internacional de Energia Atómica, apenas pode manter reservas de 300 quilos de urânio pouco enriquecido, quando anteriormente mantinha 100.000 quilos de urânio altamente enriquecido. Ainda segundo o acordo, o Irão pode enriquecer o urânio até 3,67% para fins civis, entre outras cláusulas.

Tudo indica que, até 8 de Maio de 2018, quando Donald Trump, unilateralmente, abandonou o acordo as partes do acordo estavam a cumprir cada uma com a sua parte. Aquando da retirada, Trump argumentou que o acordo era horrível e que nunca deveria ter sido assinado. Este posicionamento de Trump colheu os outros signatários de surpresa e levantou questões de sustentabilidade do acordo. Na realidade, o posicionamento de Trump pôs o acordo em agonia. Depois de um ano de agonia, o Presidente do Irão, Hassan Rouhani, veio a terreiro anunciar a possibilidade da morte do acordo e a sua substituição por um outro a ser negociado num prazo de 60 dias.

As declarações de Rouhani foram tidas como ultimato pela França, Reino Unido e Alemanha e consideraram este posicionamento como inaceitável. Mas quando foi da saída unilateral dos EUA apenas lamentaram. Rouhani agora enfrenta as sanções americanas e, ao mesmo tempo, é obrigado a cumprir com um acordo que é apenas cumprido parcialmente pelos países da União Europeia signatárias do mesmo. Os argumentos de Rouhani encontram apoio incondicional da Rússia e da China.

Importa realçar que o maior beneficiário do unilateralismo americano tem sido a Rússia que se aproveita da temeridade trumpiana para cimentar as suas relações com as potências não ocidentais. Os casos da fortificação das relações com a China, a Turquia e a Coreia do Norte confirmam a vantagem estratégica que a Rússia está colhendo na geopolítica global às expensas dos EUA. O pior da estratégia americana é que está também deixando embaraçados e perplexos, senão mesmo abandonados, os seus aliados ocidentais (França, Reino Unido e Alemanha) que se sentem obrigados a reinventarem-se, uma vez que o seu multiplicador de poder, os EUA, está afastando-se sem dó nem piedade.

Por Paulo Mateus Wache*

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