O mundo em que vivemos é tão multicolor. É um arco-íris. Um verdadeiro tratado de surpresas. Neil Armstrong, lá do alto, viu-o como uma bola azul. É uma cor linda, o azul. Gostamos. Mas mais do que as cores, a terra é tão rica em coisas boas. Coisas para ver e viver. As montanhas, planícies, savanas. As quedas de água. Os animais selvagens. Os aranha-céus. Tanta coisa… obras da natureza e do homem!

Assim de memória nos ocorre a majestosa Torre Eiffel dos franceses. A Grande Muralha na China. As Pirâmides e a Esfinge de Gize no Egipto. O Coliseu de Roma em Itália. A Estatua da Liberdade nos EUA. Os brasileiros têm o Cristo Redentor. Nós, bem nós, com a nossa grande propensão para grandes coisas, temos o Sistema. É que o homem é, por natureza, um ser insatisfeito. Está sempre à procura de razões para explicar isto mais aquilo. Aquilo que não compreende move-o para novas fronteiras… quando não o apavora. Um dos temas que, volta e meia, povoa o nosso imaginário é o sistema. Aparentemente ninguém sabe muito bem o que é, mas está bem presente na nossa vida. Todos falam do sistema, mas parece que ninguém nunca o viu em parte nenhuma… mas no momento certo, cria incertezas quando não o ranger de dentes e, nalguns casos, uma e outra palavra não reproduzível num editorial dominical!

A verdade, porém, é que o sistema está lá para nos tramar. E trama mesmo. Ninguém nunca se deu ao trabalho de explicar, às vítimas, se o tal sistema é um sujeito de carne e osso ou um alienígena. De que material é feito ou do que se alimenta. São muitas perguntas para nenhuma resposta.

O que salta à vista é que Moçambique é um país especial. Deve ser o único no mundo que tem uma única solução para vários problemas. O incrível é que parece funcionar mesmo. É mais ou menos do tipo dói-te o dente, aplica-se a referida fórmula. Mas se te doesse a cabeça, a solução seria a mesma. Bem o dente, na realidade foi um exemplo pequeno para ilustrar o que passam milhares de compatriotas todos os dias nesta pérola do Indico. Os vejamos; quase todos os dias os nossos bancos são visitados pelo tal sistema. Queres usar o dinheiro confiado ao banco e, pimba, o sistema chega antes e trama-te. Uma funcionária diligente, mexendo papeis e sem ao menos olhar-te nos olhos, diz que “não há sistema”.

 

É só o que te dizem; não há sistema. Os teus programas que se lixem. Nós não temos sistema e pronto. Cofias na barba, olhas para os lados e vês que há outros desalentados a volta.

Deixasses o dinheiro numa lata e não terias problemas com o sistema.

O sistema também visita muitas outras instituições de serviço público. Queres o teu Bilhete de Identidade, não há sistema. Queres a carta de condução e, advinha quem chega primeiro, o sistema então. O sistema trama quem quer tratar algum documento ou quem quer simplesmente levantar o seu cartão ou outro documento qualquer. O sistema está lá instalado para nos tramar… e trama mesmo. O sistema também pode assentar arraias em casa particulares. Ai fá-lo em forma de escuridão. Se tens o azar de “acabar a energia” e correres para o ponto de vendas, pode ser que oiças a resposta mágica: não temos sistema!

Mas o sistema tem também outra faceta. Há pessoas que gostam do sistema. Nos exames recentes, o sistema também actuou a favor dos alunos que não gostam de estudar. O whatsapp e o Viber entraram para o sistema de fraude académica. Os alunos enviam perguntas e recebem respostas instantâneas sobre os exercícios. Fazem fotos dos testes e mandam para os amigos que muitas vezes até são professores. Recentemente, na cidade da Matola, um director de uma escola viu-se obrigado a confiscar os celulares dos estudantes e a guardá-los num cofre seco e fresco e só devolveu-os depois dos exames. Consta que alguns alunos recebiam os exames um pouco antes de entrarem nas respectivas salas de avaliação. Desabafo de uma aluna afectada pela medida: o director tramou o sistema!

Não tenhamos duvidas; Moçambique é um país especial. Há décadas que procura o desenvolvimento integrado mas agora, diante da cruel realidade ditada pelo Sistema, somos obrigados a rever os nossos conceitos sobre o desenvolvimento e o uso das novas tecnologias. Não terá sido a toa que um cidadão visivelmente exasperado pela demora na emissão da segunda via da sua carta de condução gritou que no tempo da caneta e papel, os funcionários eram mais diligentes; agora com essas modernidades todas, complicaram-se de vez!

Um dos segredos mais profundos que existem, é que tudo o que realmente vale a pena é o que fazemos pelos outros, dizia Lewis Carrol. Nós, ou pelo menos, alguns funcionários e mesmo instituições pensam o contrário. Complicam-nos a vida. Não fazem devidamente o seu trabalho e depois arranjam bodes respiratórios (isso mesmo bodes respiratórios) via sistema para justificarem a sua inoperacionalidade.

O sistema que tanto nos trama não é mais do que o reflexo de trabalhadores contratados a martelo e escopro para ocuparem determinados lugares e postos e depois – porque naturalmente incapacitados e sem nenhuma vocação para o trabalho que era suposto fazerem – escondem-se na palavra SISTEMA para não fazerem nada. É que não é possível que um país inteiro fique preso e parado por causa de um sistema. Não temos nós gente formada para lidar com esse tal do sistema?

Se não, por favor, que venha alguém explicar-nos de uma vez por todas, quem é esse sistema ou o que é o para pararmos de sofrer! É tanto sistema quando a preocupação é do cidadão mas quando é o contrário não há sistema que nos salve das garras institucionais.

Como sói dizer-se, barba non facit philosophum (A barba não faz o filósofo) … mas se calhar nós, com a nossa veia inventiva, devíamos mudar para o Sistema faz o filosofo… agora toca a procurar um versado em Latim para grafar a nossa frase… a menos que haja problemas de Sistema!

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