A guerra da última colónia de África

A Frente Polisário, movimento que luta pela independência do Sahara Ocidental, declarou guerra a Marrocos no dia 16 de Novembro de 2020, depois de 29 anos de congelamento do conflito. A declaração de guerra surge num contexto em que o Marrocos tinha lançado uma operação militar, supostamente, para desbloquear a passagem de Guerguerat, uma região controlada pelas Nações Unidas e que estava bloqueada há três semanas pelas forças da Frente Polisário.

De qualquer das formas, a declaração de guerra é um incidente militar de um conflito esquecido e com matriz colonial. Na realidade, o conflito data da década de 1970. Com efeito, a Frente Polisário foi fundada, em 1973, para lutar contra a colonização espanhola (1884-1975). Uma luta que durou de 1973 a 1975, quando a Espanha, o Marrocos e a Mauritânia assinaram os acordos secretos de Madrid, a 14 de Novembro de 1975. Portanto, a Espanha não fez a descolonização do território, muito pelo contrário, encontrou parceiros africanos para continuar a colonização. É neste contexto que Marrocos e Mauritânia entraram no palco da colonização dividindo entre si, a partir de 1975, o território que o povo saharauí reclama como seu, ao mesmo tempo que a Frente Polisário declarou a independência do território e criou a República Árabe Saharauí Democrática (RASD). Foi assim que o conflito que opunha a Frente Polisário e a Espanha passou a opor, a partir de 1975, a Mauritânia, o Marrocos e a RASD, este último com apoio da Argélia e com reconhecimento limitado a nível internacional. Hoje, apesar de a ONU não reconhecer a RASD, cerca de setenta estados-membros desta organização global a reconhecem

A guerra entre os três actores principais (Mauritânia, o Marrocos e a República Saharauí) teve várias nuances. Por exemplo, a Mauritânia retirou-se do conflito, em 1979, em parte, por causa da pressão que os países africanos, membros da Organização da Unidade Africana, exerciam tanto sobre a Mauritânia como sobre o Marrocos. Contudo, o Marrocos não recuou nas suas pretensões imperialistas, tendo em sucessivas vagas (1982, 1984, 1985 e 1987) ocupado grande parte do território da RASD, apesar da oposição de países africanos incluindo Argélia e Moçambique. É este apoio que explica a admissão da RASD como membro da Organização da Unidade Africana a 22 de Fevereiro de 1982 e o consequente abandono do Marrocos a 12 de Novembro de 1984. Leia mais...

Por Paulo Mateus Wache*

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