(aos vivos depois da minha morte...) 14 de Março de 2015

O meu funeral será na República de Moçambique, província de Nampula, distrito de Lalaua, posto administrativo de Méti, de preferência ao lado das campas dos meus progenitores, na aldeia de Neoce.

Sabem porquê? É assim que eu gostaria e quem me quiser satisfazer depois de estar sem vida terá de seguir as pegadas que me levem a Moçambique (primeiro), a Nampula (segundo), a Lalaua (terceiro) e finalmente a Méti (aqui os vivos podem discutir, onde exactamente, sabendo que de preferência gostaria de repousar ao lado dos meus pais), para que não haja batota!

Não interessa onde a morte acontecerá, se no estrangeiro, se no mar ou no ar, bem assim não importa o grau da sua funestação ou do terror que a acompanhará, mas se houver a possibilidade de me satisfazer, os vivos terão de seguir estas sinuosas (?) peugadas, porque dizem muito ao meu eu. Moçambique é a minha pátria, a única que tenho, pois ainda não aprendi a gostar de outra, não reuni condições de me prostituir pelo universo inteiro que Deus me dispôs. É por isso que sou moçambicano, ponto final! Não tenho razões de engendrar uma batota.

Nampula é a província de onde dizem que sou, em razão do facto de os meus pais terem sido daqui e onde repousam os seus restos mortais. Tiveram uma estadia no Niassa, para onde tinham fugido, perseguidos pelo regime colonial na altura do administrador de Lalaua, Nam’wara Mwalo (que veste faca), tendo ido viver por momentos na província do Niassa, numa região chamada Nipepe, cuja fronteira só a administração, tanto colonial como a actual, conhece. Para nós não há limites, o rio Lúrio está ali colocado, para juntos dele bebermos e das suas margens emergirem riquezas que só a nossa história sabe dizer. É aqui onde nasço, para que não haja batota!

Por isso é praticamente e irrelevante dizer que sou de Lalaua ou de Nipepe: dum e doutro lado, lido com os mesmos nomes, apelidos, somos da mesma linhagem ou, bem dito, somos os mesmos! Quando visito Méti, no mesmo dia, os meus familiares de Nipepe chegam e quando faço o contrário o mesmo acontece com os meus familiares de Méti. Não há discussão, como não deve haver nenhuma sobre se sou ou não moçambicano (da República de Moçambi- que, não despedaçada em pequenas ou grandes porções independentistas). Tudo isso para que não haja batota!

Quer dizer, Moçambique é a minha pátria, se é verdade o que diz o dicionário: país onde nascemos, terra de naturalidade. Ora, ser patriota podia ser qualidade de quem é dessa pátria, mas aqui entra uma determinante, que é amar a pátria. E a discussão se abre, porque é possível ser-se dessa pátria e não se amar. Exemplos são vários, como muitos são os motivos, grosso modo egoístas, que levam a isso. Outro ponto de debate é se é possível amar uma pátria que não é nossa?

Ora, se depois de tanto viajar pelo país (o meu país), que me ensinou a gostar das variadíssimas culturas que fazem dele muito rico, para lá das belezas naturais nem sempre coincidentes, depois de chumbar na aprendizagem da maioria das línguas nacionais, depois de hoje parecer que sou mais de Cabo Delgado do que do Niassa, do que de Nampula e de Tete, que considero a minha terceira província e, depois de palmilhar o país todo, haveria a necessidade de perguntar porquê, então, quero ser levado a Lalaua, depois de morrer.

Amo aquela terra mais que qualquer outra, apesar de nas outras regiões me sentir muito bem, tal que sou confundido com eles e ter feito o suficiente para não ter vivido em vão. As minhas dívidas com aquela terra nunca consigo saldar; não me consigo esquecer da grande árvore que me viu nascer, da curva do rio que ainda se mantém, do local onde uma lagartixa que saía nas manhãs e nos dizia se estávamos atrasados ou se íamos a tempo de apanhar a formatura e cantar o Hino Nacional; e não me parece que as montanhas de Méti sejam iguais a outras; do paladar que me deixa a água da minha terra, do cheiro a virgindade dos solos e do odor da pobreza ainda incólume.

Estamos a falar duma região para onde o administrador distrital não vai, senão na companhia do governador, quando a estrada sofre uma alteração favorável à circulação de veículos, onde há funcionários públicos que se sentem punidos por terem sido ali colocados, justamente pelas adversidades que o dia-a-dia os impõe, para onde ir de carro já se levou o tempo necessário para fazer a distância Joanesburgo/ São Paulo, dum Airbus 340, para fazer 270 quilómetros.

Mas é ali aonde devo ir em definitivo, Moçambique (em primeiro lugar), Nampula (em segundo), Lalaua (em terceiro) e Méti (em quarto); daqui abre-se uma discussão se Neoce ao lado das “minhas” campas, se Thithialo, ao lado da mesquita do meu progenitor ou se na sede do posto onde hoje jaz a minha cabana, na verdade, casa onde hoje mora a paz e o meu espírito se revigora, pelo menos uma vez por ano.

Por tantas dificuldades que tenho de admitir que se possa aceitar que se ame uma outra pátria, por esta obsessão que tenho pelo significado de amor, arrisco-me a não crer que haja quem ame mais uma pátria qualquer que não seja a sua, e jure por ela fazer o melhor que pode, por isso seja patriota (repitamos duma outra pátria) a ponto de se qualificar verdadeiramente patriota.

A minha dúvida dissipar-se-ia se nesta semana um moçambicano não fosse a enterrar na França, tal como eu faria em Moçambique, Nampula, Lalaua, Méti... para que não haja batota. Disse apenas por dizer!

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